Democrata? Ditador? Democrata? (…)

E assim vai. Não dá pra dizer que o cara, por desejar reeleições sucessivas, seja um ditador. Pode-se avaliar o respeito pelas instituições democráticas e daí dizer que o cidadão é um autocrata, certo. Mas jogar o cara no lixo junto com Stalin, Pinochet e Castelo Branco só porque está abrindo a possibilidade de, democraticamente, ser eleito indefinidamente, é papo furado.

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O fato dele perder o plebiscito, por exemplo, é um claro indício de que há democracia na Venezuela. A própria idéia do plebiscito é improvável de acontecer na monarquia espanhola ou nos emirados árabes nas petrolíferas terras. Enfim.

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O grande problema, a meu ver, é o governo personalista. O que acontece lá, sucede aqui, em Cuba, na Rússia e, de certa maneira, na Argentina. O governo é um projeto pessoal, sem sucessores. Não há claramente uma plataforma política.

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Findado papo de botequim, uma pérola descoberta hoje, pra fazer rir meninos cabuladores da aula de filosofia. Trata-se de um verso popular rabiscado  por um matreiro aluno em uma das paredes da Faculdade de Letras de Lisboa e registrado por Ricardo Jorge, em “Contra um plagio do Prof. Theophilo Braga”:

Que importa que o Kant cante,
Que importa que o Comte conte!
Kant é um Kant pedante.
Comte é um Comte bifronte.
Que importa que o Kant cante
Que importa que o Comte conte!

Símbolos nacionais

Icaro Doria é tido como um dos mais notáveis publicitários da atualidade. O brasileiro de 27 anos desenvolveu, em conjunto com colegas da “Grande Reportagem”, importante revista portuguesa, a campanha publicitária “Bandeiras”, que já correu o mundo há algum tempo. Com dados da Anistia Internacional e da ONU, Doria deu outro simbolismo a proporção das cores nas bandeiras da União Européia e de sete países (Colômbia, Brasil, Angola, China, Burkina, Somália e Estados Unidos – abaixo, nessa sequência). A campanha ganhou, entre outros prêmios, o Leão de Ouro no Festival de Cannes de 2005 e o Grand Prix do Fiap, Festival Ibero-americano de Publicidade.Continue Reading

¿Por qué no te callas?

Atrasado, mas pra constar: gargalhei mil com esse video.

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Um comentarista, desses especialistas que são sempre convidados a opinar, se embaraçou todo quando comparou o Rei Juan Carlos com o Bufão Chavez em um programa noturno da Radio Record de São Paulo. Ora, pois: ambos estão indefinidamente no poder sob anuência da maioria da população. Não é mérito, nem demérito: é fato. Só um raciocínio tortuoso para, ao traçar um paralelo, concluir que um é democrata e outro é ditador.

Aliás, o que há de brasileirinhos incomodados com a permanência de Chavez por lá…

Adeus a Gorz

Três dias depois, soube que André Gorz, que também assinava trabalhos sob o pseudônimo de Michel Bosquet, morreu. Um suicídio curioso, é verdade: Dorine estava com uma incurável doença e ambos decidiram encurtar a vida.


Gorz e Dorine, em 1947. Foto by Susi Pillet, via Libération.
Um dos expoentes da Nova Esquerda, Andre Gorz manifestou um marxismo muito próximo do existencialismo. Era amigo próximo de Sartre. Escreveu, entre outros tantos trabalhos publicados no Brasil, “Adeus ao proletariado: para além do socialismo” (1980) e “O imaterial: conhecimento, valor e capital” (2003). O amor profundo dedicado a Doriane, sua companheira, é expresso, inclusive, na dedicatória dos dois livros citados. No primeiro, “A Dorine, more than ever“; no último, “Graças a Dorine, sem a qual nada haveria“. Descansaram em paz, certamente.

Ocas e responsabilidade social

Não foi a primeira vez que o vi. Com um colete cinza, grafado OCAS, vendia revista. Não dei muita bola. A bem da justiça: me comporto assim com qualquer tipo de vendedor de letrinhas sobre papel. Livros, enciclopédias, bíblias, coleções da National Geographic Magazine? Não senhor, obrigado.

Pois é. Hoje foi um dia diferente. Eu diria ao rapaz – pensei – que pagaria a revista, desde que não saísse mais que três reais. Bobagem minha; recebi a revista por três verdinhas.

Acontece que a revista, depois soube, não é uma revista a mais: publicada pela Organização Civil de Ação Social (OCAS), tem todo um projeto social por trás. Funciona mais ou menos assim: o morador de rua compra por um real cada exemplar. Fica, portanto, com os outros dois reais. O objetivo da revista, conforme expresso na página de entrada,

é fornecer instrumentos de resgate da auto-estima dos vendedores, criando mecanismos para que o indivíduo se torne seu próprio agente de transformação, de forma que Ocas” seja um ponto de passagem, e não o destino definitivo.

A revista, em si, é melhor do que muitas que aparecem, com dobrado valor, em bancas tradicionais. A edição atual (setembro/outubro) tem, como reportagem de capa, uma entrevista com o cartunista Ziraldo. Também é entrevistado, lá no finalzinho da revista, o escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez. Com vinte e um livros publicados, apenas dois circulam oficialmente em Cuba. Perdões ao cartunista brasileiro, mas acho que a capa deveria ser com o camarada Gutiérrez. Provocador, o cubano responde às questões com fina ironia. Vejam:

Ocas”: Por meio de seus livros, muita gente teve a possibilidade de ver uma Cuba pouco ou quase nada mostrada. O que acha disso?
Pedro Juan Gutiérrez – Sim, para muitos é uma Cuba desconhecida, e uma Havana desconhecida também. Toda cidade contém muitas cidades. São Paulo, por exemplo, é um monstro muito mais terrível e devorador do que Havana.

Ocas”: Porque acha que tantas pessoas querem sair de Cuba?
PJG – Eu nunca pensei em sair de Cuba. Gosto de viver ali, em Havana, em meu bairro. A situação econômica é difícil e as pessoas procuram outros lugares, como acontece com muitos brasileiros, colombianos, equatorianos, bolivianos etc. As pessoas sempre procuram um lugar melhor onde viver. Isso é universal.

Há de se concordar, depois de lida a entrevista, com a frase inicial da reportagem, assinada por Morena Madureira: Para Pedro Juan Gutiérrez, Cuba também é aqui. Ou o Brasil também é lá.

Três descobertas e um até breve

Links de blogs escondem raridades, além de ser um poderoso instrumento de arrebanhamento de súditos leais.

<Comentário ultrajante IN>: é só ver alguns blogs famosos pra intuir que a maioria dos links estão ali por mil e uma razões, menos por afinidade de conteúdo. Hã? Cê estava feliz porque teu blog foi listado em um desses medalhões? Lamento pelo trauma, mas é bem provável que seu blog, para o tal famoso, é apenas mais um a fazer número naquela modorrenta lista de milhares de blogs. Tá chorando? Que nada, rapá… pegue o copo e sente aqui, ó.<Comentário ultrajante OFF>

Pois bem. Graças a linkania de Rafael Galvão descobri Pedro Nunes, e através da Sandra Pontes cheguei ao Tuca Hernandes. Já o Chá de Hortelã, de Liliana Ometto, acessei via pesquisa google, numa tentativa de achar blogueiros que usavam podcast.

Os tais aí de cima são muito bons para um post tão reduzido. Em breve saio com um outro, um pouquinho melhor, relatando minhas impressões positivas sobre o achado.

Porque afinal de contas, Edu, “Übberland” me espera. Um até breve – que, nesse caso, corresponde a Agosto. Ciao.

Luto agebeano

Li, ainda há pouco, o comunicado oficial da Associação dos Geógrafos Brasileiros: a professora Vanda Ueda, do Departamento de Geografia da UFRGS, estava no vôo JJ 3054 da TAM. Ueda era vice-diretora da Seção Porto Alegre da AGB, da qual sou associado. Muito querida pelos colegas e alunos, a professora seria paraninfa dos formandos em Geografia, em cerimônia a ser realizada no próximo mês.

Diz a nota:

A AGB se solidariza com familiares e amigos da professora e agebeana VANDA UEDA. Nesse momento de dificuldade e de tristeza, ficam as lembranças de sua alegria e participação na construção da AGB, seja nos momentos de organização de debates e eventos, seja como membro da diretoria executiva da AGB – Porto Alegre.

TAM, Congonhas

Marlene Bergamo/Folha Imagem

É difícil escrever algo sobre essa última grande tragédia da aviação civil brasileira. Com um sistema de gestão do espaço aéreo tão desorganizado, um acidente dessa proporção parecia ser anunciado. Para alguns especialistas, o problema foi de infra-estrutura: indícios apontam irregularidades na pista recém-reformada do Aeroporto de Congonhas como causa do acidente. Na linha de fogo, sai controladores de vôo, entra Infraero. Lamentável.

P.S. 1: contrariando todas as análises feitas por especialistas ontem, há novas hipóteses sobre o acidente, minimizando, inclusive, a responsabilidade da ausência de grooving (ranhuras) na pista de Congonhas. Ver aqui.

P.S. 2, via Imprensa Marrom, a respeito dos precipitados julgamentos sobre ‘culpados’ pela tragédia:

Enfim, cada um pode escolher seu culpado. Isso não leva a nada. Serve apenas para reduzir um debate sério à seara das brigas de torcida. É preciso às vezes dar uma folga aos comprometimentos partidários – ainda que uma folga breve – para que pelo menos os textos não saiam contaminados por uma raivinha ridícula, bem pouco afeita ao que se espera dos grandes veículos em momentos trágicos como este.

P.S. 3, do Toca do Jens, a propósito dos ‘comprometimentos partidários’:

Cara…

– Porra, foda o acidente.
– HumHum. A coisa está feia pro nosso lado.
– Como assim?
– Pensa, pô. Primeiro as vaias no Pan, agora esta merda. Vão nos trucidar.
– É mesmo. O que vamos fazer?
– Nos defender atirando. Vamos lembrar que eles também são podres, remexer na bosta do lado de lá.
– Controle de danos.
– Exatamente.
– Porra, mas e os mortos? Chocante, não?
– Os mortos estão mortos. Temos que cuidar é dos vivos. Ao trabalho.
– É isso aí. Vou preparar um dossiê.

 …coroa

– Porra, foda o acidente.
– HumHum. Mas pra nós foi bom.
– Puta merda, como assim?
– Pensa, pô. Primeiro as vaias no Pan, agora esta tragédia. Vamos trucidá-los.
– É mesmo. O que vamos fazer?
– Atacar por todos os flancos. Vamos relembrar outros podres, remexer bastante na bosta.
– Maximização de lucros pra nós. Prejuízo pra eles.
– Exatamente.
– Porra, mas e os mortos? Chocante, não?
– Os mortos estão mortos. Temos que cuidar é dos vivos. Ao trabalho.
– É isso aí. Vou preparar um dossiê

A vaia

Andam questionando por aí os números do IBOPE favoráveis ao presidente. Baseiam-se, para tanto, na estrondosa vaia recebida por ocasião da abertura dos Jogos Panamericanos. Julgam, sobretudo, que os presentes representam a ‘voz do povo’.

Não, não representam.

A maior parte da animada platéia desembolsou quase um salário mínimo por um bilhete de ingresso no Maracanã. Não é a geral do Flamengo que conferiu de perto a queima de fogos, amigo.

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Outros dizem que a vaia é um puro exercício da democracia. Hoje é. Dez, doze anos antes, isso era coisa de baderneiro.

As voltas que o mundo dá, vá vendo.