Folgas e folgados

Os hômi estão de boquinha extra no final de ano. Supõe-se que mais de 25 mil reais irão engordar a já robusta conta dos congressistas brasileiros. Entrando em ano eleitoral, melhor coisa não há.

Já tem gente chamando isso de mensalão oficial. Isso porque muita gente não comparecerá no batente e, mesmo assim, levará sua bolada. A Comissão de Ética, por exemplo, não trabalhará. Deve ser por problemas éticos, certamente.

Talvez esteja também sentado em cima da ética um insólito pesquisador, que, acessando internet na Câmara dos Deputados, chegou até esse blog digitando no Google ‘mulheres, estupradas’.

Domain Name (Unknown) IP Address 200.219.132.# (Camara dos Deputados)
ISP Camara dos DeputadosLocation
Continent: South America
Country: Brazil (Facts)

State/Region: Distrito Federal
City: Braslia
Lat/Long: -15.7833, -47.9167 (Map)

Fico aqui pensando o quão magnânimo esse sujeito é. Sim, deve estar procurando subsídios para a elaboração de algum projeto em defesa das mulheres. Ahã.

Pensando bem, recesso total lá faria bem a todos. Para alguns, folga permanente seria melhor.

Essas coisas de política…

Fatos:

1. Roberto Jefferson, com sua eloqüência peculiar, denunciou um esquema de propina no Congresso. Segundo ele, muitas mãozinhas eram molhadas mensalmente por verbas públicas vindas de estatais. Apesar ser PhD nos ocultos subterrâneos da vida política, não apresentou provas da existência de tal. Foi cassado.

2. José Dirceu foi o acusado de ser o chefe daquilo que, por não ser provado, custou o mandato do colega. Solapando regrinhas básicas da jurisprudência – quem tem que provar alguma coisa é o acusador, não o acusado – cobrou-se dele provas de sua inocência. E assim, sem nenhuma prova material, o ex-homem-forte do governo foi cassado também.

3. Romeu Queiroz foi um caso a parte. Além de admitir o recebimento mais de R$ 100 mil reais da Usiminas – por intermédio de Valério –, o ilustre embolsou ainda outros R$ 350 mil da famosa SMP&B. Tudo dinheiro não contabilizado, OK? Ao contrário dos casos anteriores, aqui existiam fatos palpáveis. E ao contrário dos casos anteriores, a conclusão aqui foi a absolvição.

Conclusões:

1. A TV Câmara deixa de ser interessante. Ver bons velhinhos injuriados com qüiproquós regionais ou mocinhos fazendo poses para flashes traz tanto prazer quanto a programação dominical da TV aberta. O Roberto faz uma falta e tanto.

2. Um prepotente a menos no Congresso Nacional é um bom saldo. Sobram ainda umas cinco centenas… mas já é um bom começo.

3. CPI’s são 42,7% de investigação e 57,3% de jogo político. Político investigando político já é um mau sinal. Esperar que a ‘verdade’ saia daí é estupidez sem tamanho. Gritar ‘pizza’ raivosamente expressa uma ingenuidade política de dar dó. Nesse contexto, os argumentos repetidos Ad Infinitum valem muito mais que fatos.

Definitivamente, entender o jogo político-partidário é mais difícil do que aprender jogar xadrez. Muito mais quando não se tem a mínima vontade de aprender – tanto um quanto o outro.

Mulheres indianas, mulheres brasileiras

Mulheres bonitas, Ganges, castas e Ghandi. Para muitos, a Índia se resume nisso. E daí a surpresa do homem comum ao descobrir que o cinema indiano supera a concorrência hollyoodiana – quantitativamente – e que a indústria informática de lá é uma das mais bem conceituadas do mundo.
A Índia segue sendo um país de diferentes e de desiguais. As distâncias sociais são legitimadas por um proterozóico sistema de castas. Resquícios feudais, diriam alguns. Civilização diferente, defendem outros.

Essa organização social rígida é de longa data. Segundo alguns estudiosos, o sistema de castas já dura quase dois milênios. Sua origem está numa lenda: os humanos se originaram de um Ser Primeiro. Julga-se que as pessoas saíram desse corpo-base a cumprir cada qual com sua função.

Nesse raciocínio, os braços deram origem aos guerreiros (xátrias), a boca aos sacerdotes (brâmanes), as coxas aos comerciantes (vaixás), os pés aos trabalhadores braçais (sudras). Para terminar, os parias (achuta ou dalit) – que não saíram de parte nenhuma do Ser Original.

Os parias são impuros, intocáveis. São seres humanos merecedores de desprezo. Não podem sequer entrar no rio Ganges, sagrado para o Hinduísmo. Curiosamente, são os nativos da Índia, uma vez que as outras castas são originárias de povos invasores.

As atividades dos dalit estão relacionadas a impureza. Trabalham com lixo, excrementos, corpos mortos. Mesmo escapando dessas atividades, sua remuneração será sempre mais baixa.

Assim, escancara-se que pouco bem à coletividade faz o sistema de castas. Combinado ainda com um capitalismo selvagem de meter medo a qualquer vespa-do-mar, o resultado não seria nada humanamente desejável.

Pois bem. Para variar, a sociedade indiana encarna ainda profundos princípios machistas. Da concepção à morte, há profunda desigualdade entre os gêneros. Assassinato de mulher não desperta tanto interesse da justiça. Mulher estuprada? A culpa é da vítima, lógico. Quem mandou andar seminua?

Em 1989, o Estado de S. Paulo publicava uma reportagem que ressaltava a grande incidência de infanticídios entre as crianças do sexo feminino. Hoje, pouco mudou. Com uso tecnológico nos exames pré-natais, aumentou-se o aborto de meninas. Há notícias de que em muitas famílias importantes do interior da Índia gurias são raridades.

A verdade é que ser mulher na Índia não é tarefa fácil. O costume de o sogro pagar o dote da mulher ao genro, quando se casa, tem transformado o casamento em poderoso instrumento de barganha. Não é raro o moço chantagear o sogro, ameaçando encerrar o enlace caso não receba mais algumas pilas. Não são casos excepcionais espancamento de mulheres para abrir a carteira do sogro. Também não é incomum a mulher abreviar todas essas querelas, suicidando-se.

Essa é a vida das mulheres pertencentes às famílias que podem ofertar dotes ‘gordos’. Imagino que as moças e senhoras parias sofram bem mais. O sofrimento é duplo, como atesta Anasuya Sengupta, feminista indiana.
Dados mostram que a violência contra a mulher é mais recorrente nas famílias de baixa renda. Obviamente, há casos bem representativos no topo da pirâmide social. Mas a possibilidade da mulher ser vítima de agressões é muito maior caso ela seja pobre e com baixo nível de instrução.

Se baixar algum “sentimento pollyana” em você, sacuda imediatamente os ombros e veja que não temos nada a comemorar (os dados são do Ipas-Brasil):

– Segundo a Sociedade Mundial de Vitimologia (Holanda), que pesquisou a violência doméstica em 138 mil mulheres de 54 países, 23% das mulheres brasileiras estão sujeitas à violência doméstica.

– A cada 4 minutos, uma mulher é agredida em seu próprio lar por uma pessoa com quem mantém relação de afeto.

– As estatísticas disponíveis e os registros nas delegacias especializadas de crimes contra a mulher demonstram que 70% dos incidentes acontecem dentro de casa e que o agressor é o próprio marido ou companheiro.

– Mais de 40% das violências resultam em lesões corporais graves decorrentes de socos, tapas, chutes, amarramentos, queimaduras, espancamentos e estrangulamentos.

– O Brasil é o país que mais sofre com a violência doméstica, perdendo cerca de 10,5% do seu PIB em decorrência desse grave problema.

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Dados da violência contra a mulher em vários países você encontra aqui.
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Hoje, 25 de novembro, é Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher. A Denise organizou uma blogagem coletiva sobre o tema. A lista de participantes está aqui.

Finados

A morte é um tema que sempre me deixou extasiado. Histórias sobre essa famigerada eram minhas preferidas na infância. Uma delas me tocava profundamente: a existência de um povo por aí que chorava quando alguém nascia e promovia a maior festança quando alguém morria. Era o trágico subordinado a alegria.Não chego a ter esse comportamento, necessariamente. A comparar com as pessoas que me rodeiam, contudo, sinto-me meio que deslocado. A morte não me amedronta; só quando ela rodeia meus amigos, parentes e conhecidos que me descabelo.

Talvez seja isso um exemplo perfeito para ilustrar a teoria de Morin sobre a morte. Quanto mais forte a individualidade do outro esteja presente sobre a nossa, maior a violência da perda. Por isso ninguém se esquenta com a morte de um vizinho pé-rapado qualquer e se comove profundamente com o obituário de alguma estrela. Assim, a morte é muito mais um evento social do que um mero fato biológico.

Para Lewis Mumford, renomado historiador estadunidense, foi esse evento social um dos principais influenciadores na sedentarização do homem. Os nômades sempre retornavam aos locais onde haviam parentes enterrados. Esses lugares, apropriadamente denominados de necrópoles, deram origem às primeiras gerações de cidades. Curiosamente, as cidades dos mortos deram origem as cidades dos vivos.

Partindo do vivido, e não do concebido, o geógrafo paulista Eduardo Rezende estudou os múltiplos usos do cemitério. O objeto de pesquisa foi o cemitério de Vila Formosa. O autor é um exímio conhecedor dessas áreas. Mais de 400 receberam sua visita. Em Metrópole da morte, Necrópole da vida, Rezende mostra que existe sim vida nos cemitérios. Nem que seja para empinar pipas e soltar balões.

E assim, a alegria subverte a tragédia da morte, do fim, mais uma vez.

Presidente por um dia

Hoje tive um dia de presidente. De seção eleitoral, que fique claro. O privilégio de enforcar dois dias na repartição me deixa cada vez mais honrado com meu compromisso de cidadão.

A eleição foi tranquilíssima. Nem os sexagenários vovôs tiveram trabalho. Dois cliques, e pronto.

O resultado da minha seção não me assustou; pelo contrário, confirmou minhas suspeitas. Pelo NÃO à proibição do comércio de armas e munição, 125 votos. O SIM ficou com pífios 24 votos.

Muitos blogs partidários do NÃO já davam como certo a vitória do SIM. Para eles, o povo é burro, ignorante. Não saber escolher seus políticos é uma prova da inaptidão da plebe. Logo, escolherão a opção errada. Só isso que gente estúpida faz. E os brasileiros são ignaros por natureza. Esses blogueiros questionavam inclusive a veracidade da pesquisa que dava a vitória ao NÃO.

Alguns desses terão minha visita assim que sair o resultado oficial do referendo. Quero ver a explicação para o inusitado fato. Teriam os brasileiros se conscientizado de sua insignificância e acordado do berço esplêndido? Ou os tais blogueiros compartilham da índole daqueles que por eles foram ‘diagnosticados’?

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Nenhuma notícia pré-referendo me divertiu mais que essa.

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A madrugada de hoje me presenteou com um sonho pra lá de bizarro. Amanhã eu conto aqui.

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Enfim, a normalidade. Nada de propagandas demagógicas, nada de lixo eletrônico. Acima de tudo, sem debates dividindo famílias e abalando amizades.

A contrario sensu

O debate no Roda Viva, da TV Cultura, estava sendo anunciado durante toda a semana que se passou. Para os indecisos, uma excelente oportunidade de ver confrontado os principais argumentos das frentes pelo SIM e pelo NÃO à proibição da comercialização de armas de fogo e munição no Brasil.

Eu tentei assistir. Sério mesmo. Depois de ver o dep. Alberto Fraga, presidente da Frente Parlamentar pelo Direito à Legítima Defesa, assinalar que a proibição é um projeto do governo federal (sic!) e que talvez a próxima proibição será o uso de automóveis no Brasil (rá, rá, rá, rá.), não tive dúvidas. Voltei para “Carga Explosiva”.

[São deliciosos esses filmes de ação. A arma nunca mata homens de bem. Ou quase nunca. Se há armas em jogo, o final é sempre feliz. Por isso que adoro a ficção.]

Fiz uma segunda tentativa, entre uma parte e outra do filme. Nessa, assisti o mais midiático geógrafo da era pós-Milton Santos, Demétrio Magnoli, dizer que sua opção pelo NÃO era política. Certo, melhor voltar para o filminho da Globo mesmo.

Na verdade, o que acontece é que os meus cansados olhos e ouvidos estão desejosos de estarem em qualquer lugar, mas com tempo definido: depois de 23 de outubro.

Nesses últimos dias, participei de chats, fóruns e de algumas caixas de comentários. Incrível como esses ‘debates’ são parecidos com estéreis discussões religiosas. Em sua maior parte, os argumentos, por mais coerentes que sejam, são tão eficientes quanto malhar em ferro frio. Tanto de um lado quanto de outro. As convicções inabaláveis e inflexíveis se sucedem. O silêncio nas réplicas e nos comentários dos post’s equivale à discordância. E haja tortuosidade e má-fé entre os debatedores e argumentadores.

A propósito, esse blog não publica mais nada a respeito desse referendo até domingo. A julgar pela hesitação em comentar no excelente post de ontem do Biscoito, a decisão se estende também para as caixas de comentários.

Celebrando…

No Chile, se comemora no dia 16 de outubro. Na Argentina, em 11 e 17 de setembro. Na China, 10 de setembro. Cada dia, em cada país, faz referência e reverência a algum fato ou personalidade homenageado.

Os brasileiros usam o 15 de outubro, hoje, para as comemorações oficiais do Dia do Professor. A homenagem faz referência a 15 de outubro de 1827, ocasião em que o imperador Pedro I outorgou a Primeira Lei Geral da Educação Básica brasileira.

A sociedade patriarcal deixou sua marca, obviamente, mas já acenando mudanças. Apesar de excluir a Geometria na educação das meninas (substituída por costura, bordado e etc.), a Lei concedeu paridade entre os salários dos professores e das professoras. Além disso, procurava descentralizar o ensino no Brasil, autorizando o funcionamento de escolas em vilas e arraiais.

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Da minha listinha de blogs de leitura obrigatória, vários são escritos por gente que exerce (como eu) ou já exerceu a nobre profissão. Homenagens para:

Tereza, do Blogicamente, é professora de Língua Portuguesa em Charneca de Caparica, cidade separada de Lisboa pelo rio Tejo.

Suzana, do Su/Gutierrez (Blog da Su) é professora de Educação Física no Colégio Militar de Porto Alegre e entusiasta dos ambientes virtuais de aprendizagem.

Alfred Neuman, d’O Barnabé, já lecionou história em um cursinho pré-vestibular na capital federal.

Edk, do Longe Demais, também já deu aulas de história em Rio Branco, Acre.

Fernando Cals, do Observador, atuou em uma Faculdade de Arquitetura por mais de catorze anos.

Roberson, do Incontinentia Verbalis, é professor universitário, lecionando medicina legal no primeiro Centro Universitário do estado de Goiás.

Idelber, do Biscoito, ilustra o quadro de professores da Tulane University, em Nova Orleans, EUA.

Luis Palma, do Geografismos, está exercendo a profissão em Lisboa. Montou uma maravilhosa rede de blogs entre seus alunos.

Ana Lúcia, do P(Arte), PhD em História da Arte, é professora universitária no Canadá.

Daniela, do Idiossincrasia, especialista na língua do mercosul, trabalha na UFBa.

Antonio Carlos, do Geógrafos Sem Fronteiras, leciona Geografia no Instituto Coração Eucarístico, em Belo Horizonte-MG.

Nina, do Em poucas palavras, ensina as crianças de Pouso Alegre, também em Minas, sobre a ‘arte de manifestar os difersos afetos de nossa alma‘ (P. Bona).

A todos, Feliz Dia dos Professores.

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Nessa data, é obrigatório lembrar as péssimas condições de trabalho do professor brasileiro – notadamente a maioria, responsável pela educação básica. O salário baixíssimo não permite sequer a aquisição rotineira de livros. Poucos professores possuem acesso a Internet. Aqueles que possuem, falta o precioso tempo – uma vez que se desdobram em dois ou mais empregos (eu que o diga, com meu eventuais três períodos de trabalho por dia…).

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Hoje, assim como em qualquer outra data, sempre aparecem textos-chavões. Não vê-los é como passar o sete de setembro sem discutir se o Brasil é ou não independente. Abaixo, um texto que, mormente tê-lo visto pela primeira vez há uns dez anos, não consigo esconder um maroto sorriso nos lábios ainda hoje.

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O PROFESSOR SEMPRE ESTÁ ERRADO

Quando…

É jovem, não tem experiência.
É velho, está superado.

Não tem automóvel, é um coitado.
Tem automóvel, chora de “barriga cheia”.

Fala em voz alta, vive gritando.
Fala em tom normal, ninguém escuta.

Não falta no Colégio, é um “Caxias”.
Precisa faltar, é um “turista”.

Conversa com outros professores,
Está “malhando” os alunos.
Não conversa, é um desligado.

Dá muita matéria, não tem dó dos alunos.
Dá pouca matéria, não prepara os alunos.

Brinca com a turma, é metido a engraçado.
Não brinca com a turma, é um chato.

Chama a atenção, é um grosso.
Não chama a atenção, não sabe se impor.

A prova é longa, não dá tempo.
A prova é curta, tira as chances do aluno.

Escreve muito, não explica.
Explica muito, o caderno não tem nada.

Fala corretamente, ninguém entende.
Fala a ‘língua’ do aluno, não tem vocabulário.

Exige, é rude.
Elogia, é debochado.

O aluno é reprovado, é perseguição.
O aluno é aprovado, ‘deu mole’.

É, o professor está sempre errado.
Mas se você conseguiu ler até aqui, agradeça a ele.

Anônimo

Os carolas e as armas

De início, vejo as razões em votar sim muito mais imperativas e sensatas. Escolha do coração, escolha da razão. O cotidiano mostra que o problema é o excesso de arma, não sua falta. Arma de fogo tem uma única finalidade: matar, independentemente dos miolos no chão serem de um parente, um amigo ou algum infeliz que atentou contra o poderoso direito à propriedade individual. Na minha pobre consciência moral, homicídio é e sempre será homicídio.

Assustam-me, particularmente, pessoas religiosas [notadamente as cristãs], engajadas no NÃO. A surpresa é tão grande quanto descobrir que fãs de Ghandi estão favoráveis a resistência armada. O cristianismo oferece claramente uma filosofia pacifista – apesar de muitas vezes a história dizer que na prática a teoria é outra. O louco do Nietzsche, ao analisar o cristianismo, considerava que cristão bom era aquele que por debilidade moral aceitava a submissão facilmente. Um homem fraco, portanto.

Apesar do site do Referendo Sim ter uma seção “Religiões pelo Sim”, a opção dos fiéis parece nem sempre corresponder (o que não é de todo ruim, imaginando que a decisão final é pessoal e não influenciada pelo pastor, padre ou outro líder religioso qualquer). Pessoalmente, conheço vários ‘carolas’ a favor do Não. Gente que discursa muito bem sobre fé, Jesus, Deus, diabo, inferno e pecado, admite sem pudores que a legítima defesa, da família ou da propriedade, é natural.

Pouco conheço de assuntos teológicos. Não é preciso, contudo, ser especialista para reconhecer a índole pacifista dos princípios cristãos. Um exemplo: “Vocês ouviram o que foi dito: ‘Olho por olho, dente por dente’. Mas eu lhes digo: não se vinguem dos que fazem mal a vocês. Se alguém lhe der um tapa na cara, vire o outro lado para ele bater também. Se alguém processar você para tomar a sua túnica, deixe que leve também a capa. Se um dos soldados estrangeiros força-lo a carregar uma carga um quilômetro, carregue-a dois quilômetros. Se alguém lhe pedir alguma coisa, dê; e, se alguém lhe pedir emprestado, empreste” (Mateus, 5:38-42).

E quanto ao direito à propriedade? Uma associação conservadora cristã, a ACSI (Association of Christian Schools International), na sua Enciclopédia das Verdades Bíblicas, reconhece a condição comunitária da propriedade dos primitivos cristãos. Desaconselha, porém, devido aos inúmeros problemas daí derivados (sic) e de não haver nenhuma recomendação nas epístolas apostolares. E nem de propriedade particular, convenhamos. Divinizar a propriedade privada interessa a quem?

A arte de interpretar é a matriz da pluralidade religiosa. Pieguice à parte, a Bíblia e o Alcorão servem tanto para matar quanto para amar. Assim como no referendo, a decisão é sua.

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Razões que me levam a votar SIM estão no post abaixo.

Desarmamento (iii) – Pensando Alto

1. A segurança oferecida pela arma é ilusória e traiçoeira;

2. Arma de fogo é potencialmente mais perigosa do que a concorrência;

3. Bandido adora roubar revólveres;

4. O discurso do ‘não’ é bonitinho para a classe média instalada em nobres subúrbios e para latifundiários com milícias de prontidão;

5. Existem outras formas de segurança. Cerca elétrica mais Stalin, um legítimo pastor-alemão, dão conta do recado. Ademais, mundo cão é esse em que qualquer propriedade vale mais que uma vida;

6. O Referendo não é uma proposta petista, muito menos lulista. Logo, não é do governo. Na frente parlamentar estão políticos nada íntimos ao trato de ‘cumpanhêro’, como o deputado ACM Neto (PFL) e o senador Tasso Jereissati (PSDB);

7. Incoerência é acusar os argumentos da Frente pelo SIM de demagógico, fechando os olhos para o uso de mentiras e de meias-verdades apresentadas pelo outro lado;

8. Sou a favor do amplo e irrestrito desarmamento, de quem quer que seja; comecemos pelo mais fácil, que é desarmar os ‘homens de bem’, distantes dos ‘homens do mal’ (oh, maniqueísmo demagógico…) por apenas um aperto no gatilho;

9. Desarmamento é uma coisa, referendo é outra. Isto é, o referendo não é capaz de desarmar bandido. Todavia, não são apenas as armas de bandidos que matam.

10. Resta saber se alguém que anda armado sem autorização legal (porte de arma) é uma pessoa de bem; não é. Assim como não é aquele que se recusar a entregar o Taurus após uma hipotética vitória do Sim. O referendo tem poder de lei. E lei é lei.

11. Para quem admite a hipótese futura de alimentar a criminalidade com a compra de arma e munição, é um terrível paradoxo justificar o uso de armas para proteger a família;

12. Retórica vazia é propor o desarme primeiro do bandido, depois dos cidadãos de bem. Isso, nem aqui, nem nos States, nem na China.

13. Todo ‘bandido’ nasce ‘cidadão de bem’. Desarmar todos os bandidos hoje não é garantia de um amanhã paradisíaco.

14. Depois desse referendo, quero votar em outros. Aqui está uma excelente lista de outras opções.

Desarmamento (ii) – Delírios

A Tensão Pré-Referendo tem espantado o pouco movimento da minha conta de e-mail. Nos últimos seis dias, recebi onze e-mails tratando da votação no dia 23 de outubro; desses, nada menos que dez me propunha uma séria reflexão sobre a necessidade de votar “não”.

Um deles me chamou a atenção. Trata-se, especificamente, de como o primeiro líder soviético, Lênin, propunha tomar o poder. Segundo o e-mail, o famoso comunista escreveu um pequeno texto, em 1913, intitulado ‘Decálogo‘. Nesse escrito, oferecia dez passos a serem seguidos para se tomar o poder.

Nunca tive intimidade com o Vladimir, essa é a verdade. Tive sérias resistências à leitura de ‘Que fazer’ na juventude, por conta de sua prolixidade. Mas imaginar que o tal seja responsável por um bilhetinho tão tosco é difícil. Qualquer um que já leu Lênin reconhece facilmente o engodo.

O ‘Decálogo’ se esparramou como praga pela Internet. Como participarei da blogagem coletiva do ‘Nós na rede’ do próximo dia 10, voltarei ao assunto na ocasião. Por ora, é justo dizer que a suspeita lançada no parágrafo anterior é comprovada. O texto é apócrifo. Uma lenda urbana, nada mais. Mesmo assim, gente que acredita nas terríveis forças ocultas e mascaradas  da sociedade (sim, estou falando do ‘Leviatã fidelulista’, Foro de São Paulo e demais bobagens) se agarram a essa fraude.

Enfim, o texto do e-mail segue abaixo.

[Antes de qualquer coisa, o texto ‘sério’ acaba aqui. Estou um pouquinho cansado e quero brincar um pouco. Não vou poupá-los dos comentários infames. Não me levem a sério, OK?]


O Decálogo de Lênin

Em 1913, Lênin escreveu o “Decálogo” que apresentava ações táticas para a tomada do Poder. Qualquer semelhança com os dias de hoje não é mera coincidência.

1.. Corrompa a juventude e dê-lhe liberdade sexual;
Eu sabia que havia muito mais que liberdade herbácea na minha pobre militância estudantil. Devo contactar meus antigos companheiros de luta da UJS para me dar explicações? Ou seria melhor procurá-los com o Taurus carregado para aliviar meus traumas adquiridos por tamanha abstinência?

2.. Infiltre e depois controle todos os veículos de comunicação de massa;
Ora, pois, quem não sabe disso são os detratores do mestre Olavo. Deixa só quando descobrirem que Olival Freire Jr. é o pseudônimo adotado por Tales Alvarenga para editar a Princípios

3.. Divida a população em grupos antagônicos, incitando-os a discussões sobre assuntos sociais;
Os grupos populacionais são naturalmente harmoniosos. Esse discurso de desigualdade só surgiu quando esses malditos comunistas apareceram. Para voltar a harmonia, fim para eles – com Taurus, preferencialmente.

4.. Destrua a confiança do povo em seus líderes;
‘Tá vendo, mamãe… te falei que a Veja era comunista…’

5.. Fale sempre sobre Democracia e em Estado de Direito, mas, tão logo haja oportunidade, assuma o Poder sem nenhum escrúpulo;
Uai, num é que os milicos eram comunistas?

6.. Colabore para o esbanjamento do dinheiro público; coloque em descrédito a imagem do País, especialmente no exterior e provoque o pânico e o desassossego na população por meio da inflação;
Ahã… e nessa ordem se destacam os comunas Paulo MalufDelúbio Soares e Regina Duarte. É, o Brasil está cheio de instrumentos comunistas de tomada do poder.

7.. Promova greves, mesmo ilegais, nas indústrias vitais do País;
Ora, greves são sempre legais. Ou você não prefere ficar em casa de bermudas assistindo TV em uma plena segunda-feira?

8.. Promova distúrbios e contribua para que as autoridades constituídas não as coíbam;
A torcida do Corinthians é o braço armado do PCdoB. A do Vasco também. E a do São Paulo, do Palmeiras, do Botafogo, do Cruzeiro, do Grêmio, do Inter, do Fluminense. Só a do Mulambada que não (apesar de um acreano ainda parecer indeciso); nós votamos no “sim”.

9.. Contribua para a derrocada dos valores morais, da honestidade e da crença nas promessas dos governantes. Nossos parlamentares infiltrados nos partidos democráticos devem acusar os não-comunistas, obrigando-os, sem pena de expô-los ao ridículo, a votar somente no que for de interesse da causa socialista;
Já sabemos o que une Sílvio Pereira, Jefferson, Bispo Rodrigues e Cia…

10.. Procure catalogar todos aqueles que possuam armas de fogo, para que elas sejam confiscadas no momento oportuno, tornando impossível qualquer resistência à causa… .
Estamos a caminho, OK?