Desarmamento (i)

Saracuteando pelo Orkut (ou Sarorkuteando ®Esquizofrenia Viral), deparei já com ardorosa discussão. E, por ser ardorosa, muitas vezes os debatedores se desapegam da razão, dos fatos e dos argumentos – para apenas bradarem para os seus pares e serem calorosamente aplaudidos.Mostra disso está na transcrição abaixo, recorte das primeiras mensagens de tópicos recolhidas na comunidade ‘Não ao Desarmamento’:


REVISTA TRIP – CRIME ELEITORAL 26/9/2005 12:15

NÃO FOI DITO QUE A PARTIR DE 01/09/05 ESTARIA PROIBIDO A VINCULAÇÃO DE OPINIÕES SOBRE O REFERENDO PELOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO????

E COMO A REVISTA TRIP EM SUA MATÉRIA DE CAPA E AINDA COM VÁRIOS OUTDOORS POR SP FALA SOBRE ARTIGO CONTENDO “O PORQUÊ VC DEVE VOTAR SIM NO DIA 23” ???


26/9/2005 13:11
Denunciem ao TSE e façam a editora ter de pagar uma multa por tal ato!

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Revista Veja: 7 razões para votar não 1/10/2005 02:23

Essa semana vale a pena ler, comprar e até distribuir a revista Veja:

Capa: “Sete razões para votar NÃO na consulta que pretende desarmar a população e fortalecer o contrabando de armas e o arsenal dos bandidos.”


É isso que esperamos 1/10/2005 03:42
Parabéns ao editores e jornalistas da revista veja, é isso que esperamos dos meios de comunicações sérios e sem “rabo preso”.


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Como coerência é coisa de psicopata, vamos relevando, gente, relevando. Folgo-me em saber que os psicopatas podem estar do lado de cá. Pelo menos estarão desarmados.

A liberdade de decidir

Ainda lembro como hoje. A coordenadora levando todos os alunos, em fila indiana, para a sala de vídeo. Mal sabíamos o que se passaria. E assim, nessa inocência, tivemos nosso primeiro contato com a frieza – necessária até – do exercício médico. O vídeo era sobre aborto. A quantidade de sangue definitivamente me impressionou. Dali em diante, o molecote de quase doze anos teve uma outra relação com seu próprio sangue, capaz inclusive de desfalecer em uma simples transfusão. Aquele fato distante na infância, escondido sob o manto educativo, me marcou profundamente. Pelo medo, pelo terror, somente. Se o vídeo fosse sobre transfusão de orgãos traria a mesma sensação, obviamente.

Foi com a mesma surpresa que descobrimos, a uns três anos mais tarde, numa sombria manhã de junho, o falecimento de uma colega. Aborto mal sucedido. E lá estávamos nós, perguntando o porque daquilo tudo. Não suportando a expectativa da pressão familiar, sucumbiu-se nas mãos de espertalhões. Moralismo e educação terrorista nem sempre têm resultados desejados.

A respeito disso tudo, o direito das mulheres de decidir sobre a maternidade. Essa é a luta daqueles que almejam a descriminalização do aborto. Defender o direito ao aborto não é o mesmo que defender o aborto, muito menos estimular ou obrigar as mulheres a abortar, como bem ressaltou Alcilene Cavalcante. É, sobretudo, garantir a liberdade à maternidade e à vida a todas as mulheres. Ao Estado cabe zelar pela integridade da saúde da mulher. Nada mais ético e socialmente justo trocar a clandestinidade das clínicas açougueiras pela assistência médica em hospitais públicos.

Boa parte dos abortos clandestinos acontece em lares com pouca instrução sobre métodos contraceptivos. A expectativa de uma vida decente é mínima. Uma gravidez indesejada é resolvida, em muitos casos incidentes nas classes populares, com tradicionais ‘garrafadas’, chás à base de raízes. Comprimidos de permanganato de potássio (ou algum medicamento contendo o misoprostol como componente ativo) podem ser comprados, no mercado negro, a R$300,00. Talos de mamona são muito utilizados no meio rural. Agulhas de crochê ou qualquer outro objeto pontiagudo são instrumentos bastante preferidos nas cidades. Em qualquer situação, a vida da mulher corre seriíssimo perigo.

Os fundamentalistas religiosos, latentes nos grupos conservadores, ficam de cabelos em pé (sob a bandeira do direito à vida) ao imaginar os hospitais públicos fazendo aquilo que as clínicas particulares fazem sem o menor remorso. Esse grupo, especificamente, guarda ainda outra terrível incoerência. O apego às campanhas anti-aborto é tão tenaz quanto a simpatia pelas penas capitais. Isto é, do embrião – que tecnicamente ainda não é uma vida (é apenas um devir, uma possibilidade) surge um ser humano, vivo até entrar em descompasso com as regras sociais, quando menor infrator ou um adulto vagabundo. Aí, nesse caso, a mesma ética tortuosa diz despudoramente que a morte – por armas oficiais ou registradas no órgão competente – é merecida.

Assim como o Estado não tem prerrogativa na escolha de minha ou da sua religião, é de se entender que não é de sua competência o direito de interferir naquilo que é de foro mais íntimo da mulher: a liberdade de decidir sobre a maternidade.

Algo em comum entre furacões e Toddy

As previsões climáticas para os próximos anos são tenebrosas. A previsão do progressivo aumento da temperatura global indica que a constância e intensidade dos furacões serão bem maiores, afetando inclusive áreas antes incólumes a esses fenômenos naturais.

O Caribe é uma das áreas mais suscetíveis aos tornados, furacões e congêneres. Ao convergir para as áreas de baixa pressão localizada nas imediações da América Central, os alísios (ventos que sopram dos trópicos para as regiões equatoriais) de ambos hemisférios proporcionam a ascensão de uma massa de ar giratória que, alimentada pelo ar úmido marítimo, vai lentamente se agigantando.

Essas ventanias incomodam os caribenhos e moradores das adjacências há muito tempo. No início do século XX, por exemplo, um poderoso furacão varreu a ilha de Porto Rico. Na ocasião, uma desolada família de imigrantes espanhóis viu a lavoura de cacau ser totalmente aniquilada. Um dos filhos, Pedro Santiago, resolveu mudar de ares. Ao chegar nos Estados Unidos, se transformou num perfeito exemplo de self-made man. Em pouco menos de quinze anos, passou de lavador de banheiros a próspero empresário do ramo alimentício.

A terra que deu uma das maiores desilusões para sua família foi a primeira a conhecer o que seria seu maior sucesso. Em 1930, em Porto Rico, Santiago lançou o achocolatado “Toddy”. Originalmente, atendia pelo nome uma bebida escocesa feita com mel, leite, ovo e uísque. Na versão caribenha levava rum, cacau e melado de cana – que era também conhecido por “Rum Toddy”. O apurado tino empresarial do rapaz o levou a registrar a marca. Apesar do nome, o produto de Santiago procurava conservar as propriedades gustativas da versão modificada da bebida.

O achocolatado faz sucesso até hoje. Quase sempre pelo gosto, às vezes pela graça.

Faroeste urbano

Foi através dos pequenos livros de bolso da Editora Monterrey que tive contato, ainda criança, com a poeira do Texas, os cavalos selvagens do Oklahoma e os bravos sioux de Dakota do Sul. Enfim, desbravei uma terra sem lei, o oeste dos Estados Unidos. Os impiedosos vilões, com suas caras mexicanas, indígenas ou mestiças, eram os homens a serem derrubados. O mais rápido no gatilho prolongava sua vida até o próximo duelo. Vez por outra, o xerife – corrompido por duas caixas de uísque – se transformava em um vilão a mais, sentindo o calor do chumbo quente na testa. Ou, em outros casos, figurava apenas como decoração nessa luta do bem contra o mal. A realidade dava mostras de que o Colt45 no coldre e o Winchester na cela eram as únicas fontes confiáveis de segurança.


Estréia, em outubro, a nova novela das sete, Bang Bang. (População brasileira com mais de dezesseis anos, preste atenção. Dia 23, vote não.)


Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Desenvolvimento e independência

No sete de setembro, foi recorrente a publicação de textos veiculando a situação de dependência ao subdesenvolvimento. Desses, um dos últimos (concordando ipsis literis) se encontra no Longe Demais.

Nos longínquos anos do ensino fundamental, acompanhei a substituição de uma geografia tradicional – bem retrô e cheia de decorebas – por uma geografia crítica (que, ao que parece, continua sendo surpreendentemente mnemônica). Contaminados por um marxismo torto, não era raro encontrar explicações um tanto que heterodoxas sobre as relações entre os países. Para explicar a existência de países subdesenvolvidos e desenvolvidos, a fórmula ‘países explorados e países exploradores’ saía da manga, e, como uma mágica, tudo estava explicado.

Nesse contexto, acusar os EUA de ser o explorador-mor, nosso algoz, era um passo. Diabolizá-lo ia de brinde. Como se o Estado americano fizesse curvar – por seus próprios interesses – o Estado brasileiro.

(Não pretendo prolongar sobre o conceito usado nesse post para Estado. Se eu dissesse que lá o Estado é representado pela burguesia [BINGO!], deveria reconhecer que aqui também é. E seria interessante uma burguesia explorando outra burguesia. Ou sei lá.)

Yves Lacoste, há mais de trinta anos, falava já sobre esse fenômeno. O capital hoje é transnacional e que, como tal, não respeita fronteiras nacionais. E mais: essas relações desiguais só existem porque a minoria privilegiada nos países pobres é parceira dessas mega-empresas.

Militarmente, não há dúvidas. Os EUA são o maioral, a ponto de peitar resoluções da ONU e se lançar numa guerra contra a opinião de todo o mundo. Já economicamente, a correlação de forças não permite o Estado americano se isolar do mundo. Isso: a maior potência do mundo é dependente, como muito bem lembrou Edk.

E se alguém mesmo deseja que nosso país tupiniquim seja um país realmente independente, nesses termos, lance a idéia da nacionalização das empresas estrangeiras – e reze para que os produtos brasileiros alcance o mercado mundial. É melhor retórica vazia e aplausos, não?


Sociologia de botequim acaba aqui. Estou distante 256 km de casa, a Lan-House vai fechar e eu estou muito cansado.


Sete de setembro foi um excelente dia para o contador do blog. Registrou 57 visitas. Troquei até o Extreme pelo SiteMeter, na esperança de continuar com tanta visita. Grande bobagem. Graças ao ‘Nós na Rede’, fui linkado pelos maiores figurões da blogosfera brasileira. Aí, tudo dá certo, não?

7th of September – Independence Day

É impressionante como há gente nesse mundo que insiste em obviedades. Algumas muito, mas muito irritantes, mesmo. Em feriado, então, elas assolam. Almoço óbvio, convidados óbvios, comentários óbvios.

Das duas obviedades mais ululantes, uma já aconteceu. A outra está para acontecer.

Vamos por essa última: ali na cozinha está terminando de ser aprontado o almoço. Após, pavê. É inevitável o “é pavê ou é ‘pra comê?’”. Ggrrrr…

Fato óbvio já acontecido: é fácil reconhecer que esse feriado é, talvez, um dos mais férteis em chavões. O Homem-Chavão ainda não atualizou seu blog, mas o Tas sim. E não poderia ter vindo melhor: “o Brasil está independente? De quem? Do que?”.

O que Marcelo espera que seus leitores escrevam? A julgar pela 183ª vez que essa pergunta é feita, as respostas vão ‘variar’ de “O Brasil tem apenas passado de colônia de Portugal para colônia dos EUA” a “O imperialismo capitalista americano não nos dá motivos para comemorar o sete de setembro”. Fora isso, poderá ainda ter observações supra-importantes da ‘direita anaeróbica’ (©SSoB).

Em perguntas retóricas inócuas, meus alunos da 5ª série se sairão bem. Bônus de dois pontos para quem comentar lá. Está bem na zona de desenvolvimento proximal das crianças de dez anos, como diria meu amigo Vygotsky.

Enfim, pavê só ano que vem (e Dia da Independência também, felizmente).

Advertência: além de estragar penteados e matar muçulmanos, fenômenos naturais destroem salões de beleza e igrejas cristãs

Fonte: FolhaImagem

O furacão Katrina está despenteando as cabeças estadunidenses – independente de serem ateus, agnósticos ou financiadores do “The 700 Club”.

SSoB antecipou uma análise que deveria ser feita pelos religiosos comedores de sanduíche de pasta de amendoim ou pelos religiosos homens da TFP. Se o tsunami foi um castigo divino aos muçulmanos pelas maldades cometidas contra os cristãos, Katrina nada mais é que um aviso aos adoradores do elefante de que o patrãozinho está sendo muito malvado.

Provando que tenho uma imaginação fértil: não é que Katrina consegue formar a letra G, de God? Prova concreta de castigo celeste, não? 😉

Fundamentalismo é sempre fundamentalismo

O reverendo Pat Robertson é um sujeito franco. Expõe claramente o pensamento do conservador Partido Republicano, sem aquelas mesuras politicamente corretas tão comuns aos democratas. Ao admitir que já está passando da hora da CIA dar um fim no presidente Hugo Chavez, demonstrou a profunda incoerência e demasiada futilidade da maioria dos conservadores evangélicos estadunidenses, possuidores do péssimo hábito de se meterem em política – tal qual os fundamentalistas no Irã. Incoerência porque ‘desejo de matar’ não é, nem de longe, um sentimento cristão. Futilidade porque se envolvem com coisas tão simplórias – como a oposição ao ensino do evolucionismo nas escolas – com uma seriedade que falta quando se trata de vidas humanas. Os venezuelanos que se cuidem. Os terroristas estão querendo atacar de novo.