Mudando de Assunto…

Parte do Mercado Municipal de Floripa foi totalmente destruída por um  incêndio. A Diretoria Executiva Nacional do PT repeliu veementemente qualquer envolvimento com o ato criminoso. “É um caso claro de que a elite está conspirando contra o sucesso do único governo popular que esse país já teve“, disse um dos integrantes da direção do partido, se referindo a recente reportagem da Revista Veja (em sua última edição, o semanário afirmava que foi encontrado material incendiário na sede regional do PT de Florianópolis).

Para o promotor que investiga o caso, trata-se de um fato evidente de queima de arquivo. Delúbio nega, apesar de Marcos Valério ter afirmado que ambos viajaram para o sul pelo menos doze vezes nos últimos seis meses.

A CPI promete ouvir ainda hoje Fernandinho Beira-Mar. Em companhia de seu advogado, promete ruir as estruturas carcomidas da república petista. A delação premiada será utilizada como um estímulo para se chegar mais rapidamente a um desfecho sem pizza.

Perguntado se não havia nenhum perigo para a sociedade com a eventual liberdade de Fernandinho, seu advogado argumentou que seu cliente é um preso político, e logo que a verdade for restabelecida, entrará com um processo a favor de seu cliente contra o Estado por danos morais.

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Parece, mas não é. Só rindo mesmo.

A Terra é oca

Que a Alemanha Nazista contava com um excelente staff de cientistas, ninguém duvida. Poucos desconfiam, porém, que o núcleo intelectual do Partido Nazista era dado a fantasiosas e antigas teorias esotéricas.

A Teoria da Terra Oca é, dentre elas, a mais curiosa. É um belíssimo exemplo de como a mente humana pode ser inventiva, usando linguajar científico e complexas fórmulas matemáticas.

Os defensores dessa idéia consideravam que, enfim, haviam descoberto a razão pela qual a Terra tinha os pólos achatados. Simples: nas extremidades do planeta há um ‘buraco’. Buraco não, passagem. Para ninguém ficar na penumbra, exatamente no centro da Terra havia um “Sol Interior”. O “mundo interior” era habitado por uma civilização com conhecimentos superiores aos nossos. Eram, provavelmente, descendentes dos lendários atlantes – dos quais os arianos descendem diretamente.

Na década de 1920 houve o primeiro vôo sobre os pólos como tentativa oficial de comprovar a teoria. Nada de buraco. Mas o que o aviador fez, segundo alguns, foi acompanhar a gravidade da borda da superfície do planeta, impedindo-o de ver a entrada. Logo, havia penetrado (!) no interior do planeta sem se dar conta.

O vôo sendo usado como prova de que a Terra é oca foi a primeira explicação usando tecnologia. Mas nada se compara às fotos de satélite conseguidas por Ray Palmer, um defensor da Teoria em questão. Eram provas irrefutáveis de que havia, sim, uma passagem para o mundo de Agharta (as fotos foram tiradas durante o escuro inverno ártico).

Essa historieta entra em conexão com outras, em nada devendo no quesito fantasia. Atlantes, Shangrilás, hiperborianos, lemurianos e extra-terrestres se misturam. Se haviam poucos dados para a ciência refletir serenamente sobre o tema, a literatura nadava de braçada nessas lacunas. Julio Verne e Edgar Burroughs foram exemplos disso.

Então. Voltando aos nazistas. Em 1942, Hitler enviou uma equipe para investigar algumas ilhas bálticas localizadas nas imediações do Pólo Norte. Acreditava que, sendo a terra oca, era possível conseguir imagens da frota inglesa dentro da Terra.

Entre assessores diretos de Hitler, vários eram fortemente influenciados por teorias esotéricas. Göring, braço direito do Führer e criador da Gestapo, foi o responsável pela divulgação da teoria da Terra Oca na alta cúpula do Partido Nacional-Socialista. Ligações perigosas: a geopolítica de Haushofer, o esoterismo ariano de Göring, o carisma de Hitler e muita leitura deturpada de Nietzsche . Deu no que deu.

Para os brasileiros, tão distantes das regiões polares, um consolo: existem no Brasil três passagens para o mundo interior (Mato Grosso, Manaus e Cataratas do Iguaçu). Que tal?

PS.: Os melhores textos sobre a Teoria da Terra Oca e outros ‘mistérios’ você encontra aqui.
Se a intenção é acreditar no que eu não acredito, é melhor vir aqui.

A era atômica e os heróis

Hoje se completa 60 anos do lançamento da segunda bomba atômica sobre um combalido Japão. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o cheiro do “Fim dos Dias” pairava sobre todos os terráqueos. Era, enfim, um substituto a altura do terrível bicho papão, metendo medo até em bebês barbados de setenta janeiros.

A era atômica inaugurou um novo período na história das guerras. Elimina-se aqui a figura do herói valente e destemido. O estadista vitorioso não mais se encontra nas frentes de batalha – comprovando quão pusilânimes são os homens de poder do século XXI.

As armas utilizadas pelos poderosos líderes são meras e simples canetas. São elas as mobilizadoras do poderoso arsenal das grandes potências mundiais. Caneta e bomba, champanha e feridas – separadas por milhares de quilômetros.

Covardia virou trunfo. Heróis de guerra são os mutilados, são os corpos que se sacrificam sabe-se-lá-por-qual-motivo. É compreensível, então, a satisfação altruísta dos inúmeros homens-bombas. É o heroísmo, o verdadeiro. Mas maldito o povo que precisa de heróis, já dizia Brecht…

Por isso o horror americano à produção nuclear em países hostis, como o Irã. Para quem estimula comportamentos heróicos, nada melhor que grandes feitos. A paranóia que reina no país dos super-heróis, conservando os exageros, tem fundamento.

É, o medo de tomar do próprio veneno está cada vez mais forte.

O movimento ludita e a tecnologia. A tecnologia e as companhias telefônicas

I.

O movimento ludita foi a reação mais radical dos trabalhadores ingleses às inovações tecnológicas proporcionadas pela Revolução Industrial, no início do século XIX. Incomodados com a “eficiente” redução de empregos causada pela utilização de máquinas no processo produtivo, os operários organizados em movimentos bem articulados atacavam durante a noite e em vários lugares ao mesmo tempo, obedecendo, segundo reza a lenda, a um certo General Ludd. Acreditavam que, ao causar prejuízo aos capitalistas, estariam forçando a volta ao sistema manufatureiro – aposentando definitivamente a máquina, essa usurpadora de empregos. Todavia, os avanços tecnológicos mostraram sua inexorabilidade. Hoje, aulas ministradas a um público infantil são acompanhadas de gargalhadas quando se descreve as ações do movimento ludita. Comprovação evidente, portanto, de que a estratégia do movimento estava errada.

II.

O telefone foi uma dentre as inúmeras invenções tecnológicas contemporâneas à Revolução Industrial. O escocês (naturalizado estadunidense) Graham Bell, baseando-se em um primitivo aparelho criado pelo padre francês Don Gauthey, criou o primeiro telefone. A invenção foi patenteada em 1876. Até então, a comunicação entre lugares distantes era feita, principalmente, utilizando os préstimos dos serviços postais. As cartas sofreriam, a partir daí, forte concorrência frente uma invenção que trazia, como novidade, a velocidade na transmissão de informações. Hoje, o poder financeiro das empresas telefônicas é muito maior do que as concorrentes postais. Principalmente com a invenção da Internet, o volume de cartas despencou notoriamente.

III.

A associação aparente entre capitalismo industrial e desenvolvimento tecnológico nos leva a crer que há uma parceria indissociável entre os mesmos. Nada mais enganoso, porém. Um exemplo disso é o que vem ocorrendo nos atuais progressos de telefonia com tecnologia VoIP. As empresas telefônicas olham com evidente desinteresse para essas novidades. A BrasilTelecom, por exemplo, foi denunciada recentemente pelo Ministério Público Federal do Tocantins por proibirem, em cláusula contratual, os assinantes da Internet Turbo (ADSL) de utilizar softwares baseados nessa tecnologia, como o Skype, Messenger, FoneUol, entre outros. Estariam as empresas telefônicas contra o mesmo movimento que propiciou a sua criação, a mais de século atrás?

IV.

Tal qual a hilaridade dos luditas, assim é a postura das Companhias Telefônicas. Beneficiaram-se das inovações tecnológicas, nascendo e crescendo sob a égide da modernidade técnica. Abominam-nas, contudo, quando se olham no espelho e vêem que, após um século, o telefone tal qual idealizado por Bell está superado. A sagacidade com que agarram a medonha “assinatura básica”, um artifício que permite às empresas cobrarem por um serviço não utilizado, demonstra o quão conservadores, egocêntricos e avaros são determinados setores da sociedade capitalista, mormente aqueles do topo da pirâmide social. Para as telefônicas, o mal agora é a tecnologia. Daí, portanto, medidas como a proibição do Skype e similares. Seria um retorno às avessas ao movimento ludita?

O Brasil é aqui e a Daslu é ali

Há muita gratidão pelo fim do programa Cidade Alerta na Rede Record de Televisão. Poucos, em sã consciência, achavam graça na espetacularização do crime.

Para evitar uma crise de soluços, o populacho migrou para o também trash Brasil Urgente, da Band.

Nesses programas não há nenhuma novidade. Só mudam os atores. Isto é, o nome das vítimas e dos acusados. Mas os rostos são familiares, comuns. Mesmo trocando o nome do bairro periférico, a paisagem continua sendo a mesma. Penúria. Miséria.

Pois é. Radicais mudanças aconteceram tanto nas TV’s quanto nas notícias. Daslu substituiu o Morro do Urubu. Ao vivo e em cores, a poderosa empresária seguiu no camburão. Tal qual um mané qualquer.

É difícil de pensar que isso está ocorrendo no Brasil. Tão difícil que muita gente já está reclamando. Entre eles, a poderosa FIESP. E são claros: não estão a favor da criminalidade, mas contra a espetacularização da ação da Polícia Federal.

Shows à parte, o espetáculo quem dá é a TV, a revista. Falar contra a PF é mais fácil do que falar contra a Globo. E se aquilo for espetáculo, ele é cotidiano para a maioria da população brasileira (ação da polícia nos morros lembra filme de Hollywood, não é mesmo?). A novidade (e põe novidade nisso) é a troca da Mariquinha pela Eliana.

É essa troca que não deve ter agradado. As barbas estarão de molho?

11 de setembro, o retorno (II)

A grande quantidade de flores em embaixadas britânicas do mundo inteiro me fez pensar em como sou frívolo e superficial. Não deveria mandar alguma? Foi com amargo na boca que vi a cena. Já suspeitam de mais de sete dezenas de vítimas no atentado.

O terrorismo é o mal do século XXI. Essa idéia já vem ganhando adeptos na grande imprensa. A repetição por indefinidas vezes faz a frase ficar verdadeira. Nem ao menos passa em nossa cabeça alguma outra visão diferente a respeito do terror.

Passo, pois, a procurar no dicionário. E lá está a definição:

Terrorismo sm. Modo de coagir, combater ou ameaçar pelo uso sistemático do terror.

Terror sm. 1. Estado de grande pavor. 2. Grande medo ou susto.

Assim definido, pensemos em duas situações prováveis:

Situação 1: jornais estadunidenses noticiaram que a Al Qaeda estava interessada em atacar alguma cidade do interior do país de Tio Sam. Boa parte da população ficou com os nervos à flor da pele. A paz real recebe a intromissão de algo estranho, incômodo.

Situação 2: desde a invasão do Iraque, explosões violentas se tornaram comuns. No medo presente e real, paz é algo sonhado, utópico.

Em uma das situações, o terror se manifesta com mais força. Mas nossa sensibilidade contraria nossa razão. Choramos pelo terror em menor proporção.

Vejo mães, filhos e amigos chorando as vítimas na Inglaterra. Num esforço, tento imaginar quantas centenas de órfãos e de pais desesperados as imediações do Eufrates e do Tigre tem conhecido. Sem nenhum tipo de cobertura da nossa independente imprensa, o esforço fica só na imaginação mesmo.

Comprarei flores. Os iraquianos merecem. A sanguinária ditadura de Saddan, a bárbara invasão ianque e a estupidez da violência dos rebeldes no Iraque mostram onde, de verdade, estão os apavorados pelo terror. Aproveito as lágrimas brotadas pelos atentados londrinos para chorar pelos iraquianos.

Maktub!

Sobre as estrelas cadentes

Estrelas cadentes não são estrelas. Essa lição elementar é aprendida pelos alunos na 5ª Série do Ensino Fundamental. De uma tacada só, aprendem o que são meteoritos e que as estrelas não caem.

Na história da humanidade, os astros exerceram um enorme fascínio. Estrelas, cometas e congêneres tem contribuído com uma infinidade de manifestações religiosas. Os astros se transformam em deuses e deusas.

Pouco conhecimento científico sobre a desconhecida amplitude do espaço exercitava a imaginação humana. Esse comportamento se reflete hoje no homem em graus variados da infância a velhice.

Todavia, o significado do termo “astro” tem mudado bastante. Depois de inúmeras descobertas científicas, o mundo parou de olhar embasbacado para o céu (salvo as ocasiões de eclipse lunar ou solar). Enxerga-se o dia e a noite, ignorando o Sol e a Lua. Tempo é dinheiro, afinal.

O tempo é dinheiro. O dinheiro se transformou no Sol da sociedade moderna. É o deus-maior. Como ser supremo, estimula a criação de outros astros a seu redor. Esses o circundam, em adoração à glória, ao poder, ao luxo.

Nesse mundo, não há espaço para meios termos. Comuns não são astros. Seja excepcional. Assim, os deuses se sucedem. Às vezes usam títulos nobiliárquicos. Essa modéstia não diminui sua divindade. Rei disso, rei daquilo. Rei do futebol. O rei da música. Rainha dos baixinhos. Astros. Estrelas. Constelações. Celebridades.

As crianças, a centenas de anos dos adoradores do Sol, se iniciam na nova arte da adoração. Das apresentadoras infantis a Disneworld (Neverland?), o novo fascínio das estrelas. Até que um astro a corrompa. Corrompa? Mas é um astro, e deuses não se julgam. E se julgam, devem ser absolvidos! Os deuses não erram.

Apesar disso, os exemplos se sucedem. Em uma ingênua, despropositada e descuidada afirmação, Ronaldo, o “Fenômeno”, disse que era branco. Desconfiaram de racismo velado, à la brasileira. Deuses não podem errar.

 Até o partido da estrela vermelha sofreu dessa aura divina. Todos os seus componentes eram infalíveis, incorruptíveis. Parece que até os velhos oligarcas acreditavam nisso (antes não assumidamente por motivos óbvios), dada a perplexidade e a contínua repetição de que os petistas rasgaram sua bandeira. Os deuses não são corrompidos, nem corrompem.

Enfim, quer queiram ou não, os deuses são homens. Todos estamos corrompidos. Não há um justo sequer. Ninguém é estrela. Todos somos cadentes. E que atire a primeira pedra quem não for um companheiro de mãos sujas. Ops…

11 de setembro, o retorno

Repeteco quase quatro anos depois, agora em Londres. Os agressores não quiseram esperar quatro dias. Corriam o risco de alguém cantar parabéns e receberem um presente. Presente para os terroristas? Pode ser uma bomba arrasa-quarteirão. Afinal, temos que mostrar aos extremistas que nós, os moderados, somos capazes de tanta violência quanto eles. Imaginem se fossemos radicais…

 

O Ocidente está pagando pela burrice de ter se lançado vorazmente em territórios onde há tanta nitroglicerina. As arábias não são repúblicas de Bananas com seus bananas ao sul do Rio Grande. Estão longe disso. E bicudos não se bicam, não é verdade? Bush e Blair, os estúpidos-mor. Laden, o estúpido mas com a sincera cara de vilão.

A civilização européia-judaico-cristã, ainda crente de que se ganha tudo com ferro e fogo, está sendo duramente fustigada. Anos de imperialismo, embriagados pelo poderio econômico e bélico, deixaram os ocidentais cegos. Não perceberam que o preço de se ter nariz grande é morrer sem cabeça.

Quem paga? Quem não tem nada com isso. São os trabalhadores ingleses e espanhóis usuários de metrô, os cidadãos iraquianos ou os bombeiros e office-boys americanos no Word Trade Center que passam o recibo. Estúpidos por estúpidos, os brasileiros são melhores (“o melhor do Brasil é o brasileiro”, não é?). Lascam a sua vida, mas não acabam com ela. Te negam hospitais e escolas públicos de qualidade, mas não jogam granadas sem pino em você, nem explodem metrôs.

 

Com caras de otários, escutamos Mr. Bush dizer que quem mata inocentes tem demônio no coração. Logo ele, que é capaz de deixar birutinha qualquer demômetro*. E já aponta raivosamente para a Al Qaeda. (“Tudo ela, tudo ela…”). Provavelmente seja. Mas podem ser os franceses, ainda grilados por terem perdido a sede das olimpíadas em 2012 .

 

(tem gente que deve estar mais aliviado: a pauta principal dos jornais não vai ser mais mensalão)

 

* Demômetro: aparelho inventado e patenteado pelo famoso padre Quevedo. É capaz de detectar a presença de microsatãs em uma distância de até 500 metros. Não funciona na esplanada dos ministérios.

Globalização e Mundialização. Espaço Geográfico e Lugar. Intimidades que não são mais íntimas.

Lembro-me da quantidade de trabalhos sobre globalização que inundaram as escolas na década de 1990. Foi, inclusive, capa da Revista Veja em 1996 (se minha valeriana memória não me trair). Quem não soubesse o que era a tal coisa, não passava de um ignorante.

 

A tradição sociológica francesa (que, como François Quesnais, prefere falar em mundialização) recusou firmemente a nova moda da globalização. A birra francesa era porque já estudavam a mundialização há bastante tempo, mas lhe foram negados a paternidade do conceito de global. Já havia todo um currículo de pesquisas na França sobre o encurtamento das distâncias e diminuição do tempo por meio do avanço tecnológico na informação e nos transportes.

 

O aprofundamento e difusão do tema logo se acompanhou de uma discussão paralela. Nunca tanto se falou sobre o lugar. Fenomenólogos, marxistas, neopositivistas, enfim, geógrafos e estudiosos de todos os matizes filosóficos se debruçaram na sobrevivência do “lugar”.

 

Oprimido pelo global, o lugar, aquela coisa única, particular, logo perderia sua identidade frente a possível homogeneidade do espaço. Nem de longe foi isso que aconteceu. O lugar está cada vez mais forte (que o diga o turismo). Mas o lugar não é mais como antes. O particular, o lugar em suas especificidades, em um flash da National Geography ou uma tomada da CNN, se torna global (ou mundial, como queiram). A intimidade do espaço geográfico é exposta, a título de globalização, para milhares de olhos consumidores e milhões de olhares (somente) desejosos.

 

É o mundo se tornando cada vez mais voyeur. Nós, Homo sapiens sapiens seculus XXI, somos globais em público, mas intimamente doidos pelo particular. As novas tecnologias têm nos ajudado. Qualquer que seja seu desejo, a tecnologia – esse gênio da lâmpada moderno – realiza. Mas pague, por favor.

 

Todavia, o tempo faz as tecnologias baratearem até ao infinito. O fim é a obsolescência. Ainda bem. Qualquer cidadão comum, rapazotes ou velhotes, já passeiam por aí com poderosas microcâmeras.

 

Elas, as microcâmeras, têm achincalhado a privacidade de muita gente. Klaus, o rapazote do Rio, e Marinho, o velhote de Brasília, são exemplos vivos de que o oculto tem pernas curtas (já a mentira, nem tanto). O que há de mais íntimo na sua vida pode estar somente na sua cabeça. Inclusive os chifres.


PS.: Para quem esteve fora do planeta na última semana, um breve glossário:

Valeriana: de Marcus Valério, publicitário que esqueceu o destino de dezenas de saques milionários feitos no Banco Rural, em Brasília.

Klaus: rapazote que gravou suas peripécias íntimas com a namorada e distribuiu na net. A mãe da garota não gostou e está intencionada em deixá-lo conhecer a intimidade de uma cela. Só não vai estar sozinho.

Marinho: Maurício Marinho, ex-diretor da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Flagrado angariando recursos, explica o inexplicável e ninguém entende nada. Hã?

O sapo virou príncipe. O príncipe virou sapo?

No final da década de 1980 eu era um moleque ainda. Assistia Smurf, He-man, She-ra, Águia de Aço, Profissão Perigo. Mas também assistia aos Programas Eleitorais Gratuitos. Em um desses, tive a oportunidade de acompanhar a origem de um apelido que marcou por muitos anos um dos candidatos a presidente. Era o sapo barbudo.

Os anos seqüentes a eleição de 1989 me mostrou que esse apelido caricato ao ex-presidenciável era acompanhado de profunda rejeição por parte de muitos brasileiros ao partido que o tinha como um dos fundadores e principal nome. Sapo não era o homem. Sapo era o partido.

Vários presidentes e muitas maracutaias depois, o partido se tornou um sinônimo de ética e de democracia. Ética pelo apego ao zelo pelo bem público e pela fiscalização inescrutável do governo. Ética pela tolerância zero com negociatas e esquemas de corrupção. Ética pela promoção das Comissões Parlamentares de Inquérito (CPI) à menor sombra de podridão. Democracia por compreender o pensamento diferente. Democracia por rechaçar qualquer forma de autoritarismo. Democracia pela própria constituição do partido, marcado por tendências da extrema-esquerda a correntes moderadas.

O povo brasileiro beijou o sapo. O anfíbio se transformou em príncipe. Os seus ideais haviam convencidos milhões de brasileiros de que um novo Brasil era possível e viável. A palavra mais lembrada ao agora príncipe era honestidade. Até que…

Começou a pipocar os escândalos. Waldomiro. Correios. Roberto. Exige-se CPI. Mas o partido da CPI se nega. Incoerência? Profunda. Tanto de um lado como de outro. Os bombeiros de antes viraram hoje incendiários, e vice-versa. Aceitou a CPI relutantemente, depois de cada vez ficar mais comprovado relações obscuras entre o publicitário Marcus Valério e dirigentes petistas.

Se a ética passou por rotas nunca dantes navegadas, a histórica imagem do Partido Democrático se desfaz pelo bordão “lugar de quem vota contra o governo é na oposição”. Liberdade de opinião? Só se for a favor do governo. Querem desmanchar verdadeiramente a imagem histórica do partido. Querem transformá-lo em mais um das dezenas que por aí existem.

O príncipe está virando sapo. E ninguém viverá feliz para sempre.