{"id":200,"date":"2007-06-13T02:05:15","date_gmt":"2007-06-13T02:05:15","guid":{"rendered":"http:\/\/julianorosa.org\/?p=200"},"modified":"2007-06-13T02:05:15","modified_gmt":"2007-06-13T02:05:15","slug":"tropinha-retroceder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/?p=200","title":{"rendered":"Tropinha, retroceder!"},"content":{"rendered":"<p>O professor Simon Schwartzman referendou uma tese problem\u00e1tica. Entrevistado pela Revista Veja em um <a href=\"http:\/\/veja.abril.com.br\/130607\/p_078.shtml\">artigo<\/a> que, futuramente, quero coment\u00e1-lo, Simon emprestou seu prest\u00edgio a uma frase infeliz. Diz o soci\u00f3logo:<\/p>\n<blockquote><p><em>As crian\u00e7as n\u00e3o aprendem mais o nome dos rios ou as datas relevantes da hist\u00f3ria da humanidade. Elas est\u00e3o tendo contato com uma ci\u00eancia social superficial, marcada pela cr\u00edtica marxista vulgar.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Cabe, aqui, uma reminisc\u00eancia: quando professor, frequentemente escutava isso de pais de alunos. Aquela hist\u00f3ria do pai querer para o filho a escola que um dia teve. Ressuscita, nesse caso, a esquel\u00e9tica e ultrapassada geografia nomenclatural, decorativa e insossa. Ignoro, nesse caso, que n\u00e3o havia nenhum pai do gabarito do Dr. Simon.<\/p>\n<p>Uma professora, indignada pelo endosso de Schwartzman a essa contradit\u00f3ria id\u00e9ia, enviou-lhe um e-mail. A mensagem foi reproduzida no <a href=\"http:\/\/sschwartzman.blogspot.com\/\">blog do soci\u00f3logo<\/a>.<\/p>\n<p>Estranhamente, <a href=\"http:\/\/sschwartzman.blogspot.com\/2007\/06\/histria-geografia-e-cincias-sociais-nas.html\">Simon reconhece a evolu\u00e7\u00e3o da historiografia mundial<\/a>, trazendo \u00e0 baila a matriz francesa (Fernand Braudel, Marc Bloch e Lucien Febvre),  indicando as fontes renovadoras do ensino de hist\u00f3ria tradicional; no entanto, talvez para salvar a esperta sele\u00e7\u00e3o da frase feita pela reporter da Revista, concluiu que:<\/p>\n<p>1. A adapta\u00e7\u00e3o das diversas tend\u00eancias da Hist\u00f3ria no curr\u00edculo escolar \u00e9 problem\u00e1tica;<\/p>\n<p>2. Um bom curso de hist\u00f3ria deveria oferecer, al\u00e9m &#8220;do contexto e interpreta\u00e7\u00e3o dos grandes processos sociais&#8221;, um referencial claro de eventos e fatos hist\u00f3ricos delimitados numa esp\u00e9cie de &#8220;linha do tempo&#8221;.<\/p>\n<p>Sobre a primeira conclus\u00e3o, embora a entenda, acho a id\u00e9ia um tanto quanto pelega; nesses termos, a disciplina escolar \u00e9 um mero desdobramento de uma disciplina cient\u00edfica.  Essa proposta foi muito difundida pelo matem\u00e1tico franc\u00eas Chevallard.  Em outro polo, acho mais coerente &#8211; at\u00e9 mesmo considerando as diversas culturas escolares que moldam o saber escolar &#8211; a proposta do tamb\u00e9m franc\u00eas Andre Chervel, ao considerar que in\u00fameros fatores contribuem para a identidade de uma disciplina escolar &#8211; que n\u00e3o somente a disciplina cient\u00edfica de refer\u00eancia.<\/p>\n<p>A respeito da segunda conclus\u00e3o, Simon contradiz o que a Revista Veja afirma. A cr\u00edtica estampada no texto da mat\u00e9ria foi clara: substituiu-se no ensino de hist\u00f3ria, e imprudentemente, o estudo das datas pela an\u00e1lise dos processos hist\u00f3ricos. Como consequ\u00eancia, abriu-se espa\u00e7o para um marxismo cr\u00edtico vulgar, esse <em>mal-que-assola-o -mundo-p\u00f3s-moderno<\/em>. Tudo assim, f\u00e1cil e rapidinho.<\/p>\n<p>Ora, parece-me mais que foram duas pessoas depoentes. Uma, na Revista Veja, acha que devemos voltar a ensinar fatos, nomes, etc. (s\u00f3 faltou lembrar dos &#8216;her\u00f3is p\u00e1trios&#8217;). Outro, no blog, acha que \u00e9 seminal um ensino de hist\u00f3ria que considere o processo, mas sem ignorar um &#8216;mapa&#8217; (para usar a express\u00e3o de Simon) dos eventos mundiais mais importantes.<\/p>\n<p>Se na Hist\u00f3ria a cr\u00edtica ficou, assim, <em>meia-boca<\/em>, a fragilidade \u00e9 inconteste quando a Geografia entra na roda. Sustenta o professor:<\/p>\n<blockquote><p><em>Na geografia, o problema \u00e9 parecido. Mais talvez do que a hist\u00f3ria, o que era antigamente geografia est\u00e1 hoje dividido entre muitas disciplinas diferentes \u2013 cartografia, geoci\u00eancias, bot\u00e2nica, economia regional, demografia, sociologia urbana e sociologia rural, entre outras. Os franceses, sobretudo, com sua excelente tradi\u00e7\u00e3o de ensino, desenvolveram uma geografia para as escolas que procura ser uma s\u00edntese did\u00e1tica de tudo isto, com um forte elemento descritivo \u2013 \u00e9 a\u00ed aonde os alunos aprendem como s\u00e3o os continentes, os pa\u00edses, as principais forma\u00e7\u00f5es naturais, os sistemas pol\u00edticos e econ\u00f4micos, como o territ\u00f3rio \u00e9 ocupado pelo homem \u2013 e, claro, quais s\u00e3o os principais rios, e a import\u00e2ncia que t\u00eam.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>A Geografia Francesa que o Simon se refere teve seus fundamentos abalados h\u00e1 mais de trinta anos. Geografia, enquanto s\u00edntese, j\u00e1 nem se discute mais nos c\u00edrculos acad\u00eamicos. <em>Excelente tradi\u00e7\u00e3o de ensino da Geografia francesa<\/em> \u00e9 outra coisa question\u00e1vel, tamb\u00e9m. Tivesse o professor lido <a href=\"http:\/\/www.livrariacultura.com.br\/scripts\/cultura\/resenha\/resenha.asp?nitem=183448\">esse livro<\/a>, publicado h\u00e1 d\u00e9cadas, n\u00e3o diria tal disparate.<\/p>\n<p>Enfim: caso queira entender, realmente, como anda a situa\u00e7\u00e3o da Geografia Escolar francesa, \u00e9 interessante ler <a href=\"http:\/\/www.livrariacultura.com.br\/scripts\/cultura\/resenha\/resenha.asp?nitem=5020600\">esse livro<\/a>, especialmente o cap\u00edtulo cinco (<em>O ensino de Geografia na Fran\u00e7a<\/em>). H\u00e1, tamb\u00e9m, uma excelente disserta\u00e7\u00e3o de mestrado sobre a situa\u00e7\u00e3o atual do ensino Geografia nas escolas francesas, dispon\u00edvel para download <a href=\"http:\/\/www.bdtd.ufu.br\/tde_busca\/arquivo.php?codArquivo=330\">em<\/a> <a href=\"http:\/\/www.bdtd.ufu.br\/tde_busca\/arquivo.php?codArquivo=331\">tr\u00eas<\/a> <a href=\"http:\/\/www.bdtd.ufu.br\/tde_busca\/arquivo.php?codArquivo=332\">partes<\/a>. Mas, em todo caso, se for um entusiasta incondicional de uma geografia nomenclatural, melhor deliciar-se com o v\u00eddeo abaixo:<\/p>\n<p>&amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;lt;\/p&amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;amp;gt; <\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O professor Simon Schwartzman referendou uma tese problem\u00e1tica. Entrevistado pela Revista Veja em um artigo que, futuramente, quero coment\u00e1-lo, Simon emprestou seu prest\u00edgio a uma frase infeliz. Diz o soci\u00f3logo: As crian\u00e7as n\u00e3o aprendem mais o nome dos rios ou as datas relevantes da hist\u00f3ria da humanidade. 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