{"id":222,"date":"2007-09-17T19:31:21","date_gmt":"2007-09-17T22:31:21","guid":{"rendered":"http:\/\/julianorosa.org\/?p=222"},"modified":"2007-09-17T19:31:21","modified_gmt":"2007-09-17T22:31:21","slug":"asi-soy-contra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/?p=222","title":{"rendered":"As\u00ed? Soy contra&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Queria apenas um livrinho de entretenimento para passar o final de semana. Lembrei-me d&#8217;<em>Os Reis Malditos<\/em>, de Maurice Druon, escritor franc\u00eas que usou seis volumes para tra\u00e7ar um excelente painel dos alcoviteiros palacianos parisienses do seculo XIV, e que, lidos na adolesc\u00eancia, pouca recorda\u00e7\u00e3o me traz hoje &#8211; a n\u00e3o ser pelo fato de que anunciava para todos os colegas como a melhor s\u00e9rie j\u00e1 escrita por a\u00ed. Perto da cole\u00e7\u00e3o de Druon, ainda na <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/i.s8.com.br\/images\/books\/cover\/img9\/64579.jpg\" align=\"left\" height=\"200\" width=\"130\" \/>estante de literatura francesa, encontro o at\u00e9 entao n\u00e3o lido <em>O \u00faltimo dos Medicis<\/em>, de Domenique Fernandez &#8211; e deixo meu querido Maurice para uma pr\u00f3xima vez. Domenique, homossexual assumido, tem certa freq\u00fc\u00eancia em usar protagonistas gays hist\u00f3ricos. Assim foi em <em>Tribunal de Honra<\/em> e <em>A corrida para o abismo<\/em>, retratando, respectivamente, a vida do compositor russo Tchaikovski e do pintor italiano Caravaggio, respectivamente. Por <em>pr\u00e9-conceito<\/em>, poder\u00edamos imaginar que os personagens de Fernandez assumissem uma postura her\u00f3ica, valente, pr\u00f3xima dos valores comumente identificados pelo conceito de dignidade. Ilus\u00e3o, por\u00e9m. Se h\u00e1 alguma benevol\u00eancia por parte do autor em rela\u00e7\u00e3o ao personagem gay, fica circunscrito a capacidade longeva de contrariar as m\u00ednimas regras sociais em voga. O caso de Gian Gastogne, o \u00faltimo mandat\u00e1rio representante da poderosa fam\u00edlia dos Medicis, e gr\u00e3o-duque de Floren\u00e7a na transi\u00e7\u00e3o dos s\u00e9culos XVI\/XVII, \u00e9 exemplar. Narrado em primeira pessoa, pr\u00e1tica corrente do autor franc\u00eas (e usando, sempre, um personagem contempor\u00e2neo aos fatos), nas p\u00e1ginas centrais do livro nos \u00e9 apresentado sua homossexualidade aos olhos do narrador e, em seguida, ao pai:<\/p>\n<blockquote><p> &#8220;<em>Por que Gian Gastone n\u00e3o tinha escolhido um jovem senhor da corte, onde esses costumes eram, sen\u00e3o honrosos, pelo menos aceitos com uma neutralidade benevolente?<\/em> (&#8230;) <em>Mas esse africano bastardo? Um tipo de \u00faltima categoria, que condenava Gian Gastone aos encontros furtivos, um mesti\u00e7o, bom apenas para o prazer clandestino.<\/em>&#8221; (p. 118)<\/p><\/blockquote>\n<blockquote><\/blockquote>\n<blockquote><p>&#8220;(&#8230;)<em><br \/>\n&#8211; Meu pai, eu n\u00e3o me casarei.<br \/>\nCol\u00e9rico, o gr\u00e3o-duque ficou vermelho. N\u00e3o sabia eu como o rapaz poderia justificar-se quando, de improviso, declarou &#8211; e, por mais habituado que eu fosse \u00e0 independ\u00eancia de sua linguagem, a seus arrebatamentos, a seus desaforos, fui tomado de surpresa por um descaramento t\u00e3o formid\u00e1vel:<br \/>\n&#8211; N\u00e3o me casarei, meu pai, porque&#8230; (ele pr\u00f3prio, hesitando antes de soltar a palavra fatal, tinha enrubescido) porque&#8230; v\u00f3s vedes diante de v\u00f3s&#8230; um homossexual!<\/em><br \/>\n(&#8230;) <em>Eu achava o filho atrevido; a aud\u00e1cia do pai me derrubou. <\/em>(&#8230;) <em>Ele avan\u00e7ou at\u00e9 Gian Gastone e apertou-o em seus bra\u00e7os<\/em> (&#8230;):<br \/>\n<em> &#8211; Um homossexual!&#8230; At\u00e9 que enfim!&#8230;<\/em> (&#8230;)<em> Eu mesmo, sem me vangloriar, algum favorito de cama, aqui e ali, eu nunca neguei. Nem teu irm\u00e3o, parece!<br \/>\n&#8211; V\u00f3s, meu pai,  o mais intrat\u00e1vel defensor da religi\u00e3o romana! Raciocinar nem mais nem menos que um pag\u00e3o!<br \/>\n&#8211; Filho devoto da Igreja, sou primeiro um M\u00e9dicis!<br \/>\n&#8211; A igreja vos condenaria se&#8230;<br \/>\n&#8211; O que \u00e9 proibido aos pobres, aos obscuros, continua permitido aos ricos e poderosos.<\/em>&#8221; (p. 131-132 ).<\/p><\/blockquote>\n<p>Sim, como se v\u00ea, o pai carola e austero concorda genuinamente com a posi\u00e7\u00e3o do filho. Da\u00ed ate o final do livro, Gian Gastogne mergulha em um profundo sentimento autodestrutivo, que o leva, claro, ao opr\u00f3brio. O raciocinio do personagem \u00e9 algo mais ou menos aproximado da frase atribu\u00edda a Groucho Marx (\u201c <em>Eu nunca gostaria de pertencer a qualquer clube que aceitasse uma pessoa como eu como membro<\/em>\u201d). Um libertarianismo \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, portanto. As cenas finais s\u00e3o de textura desagrad\u00e1vel, nojentas at\u00e9. Pela excelente constru\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria de Fernandez, por\u00e9m, n\u00e3o d\u00e1 pra largar o livro. Se \u00e9 certo que dificilmente torceremos por esse anti-her\u00f3i, por outro lado dificilmente desgrudaremos da leitura do livro, at\u00e9 a \u00faltima frase.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Queria apenas um livrinho de entretenimento para passar o final de semana. Lembrei-me d&#8217;Os Reis Malditos, de Maurice Druon, escritor franc\u00eas que usou seis volumes para tra\u00e7ar um excelente painel dos alcoviteiros palacianos parisienses do seculo XIV, e que, lidos na adolesc\u00eancia, pouca recorda\u00e7\u00e3o me traz hoje &#8211; a n\u00e3o ser pelo fato de que<span class=\"excerpt-ellipsis\">&#8230;<\/span><\/p>\n<p><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/blog.julianorosa.org\/?p=222\" itemprop=\"url\">Continue Reading<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-222","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-leitura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/222","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=222"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/222\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=222"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=222"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=222"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}