{"id":273,"date":"2008-07-10T06:57:03","date_gmt":"2008-07-10T06:57:03","guid":{"rendered":"http:\/\/julianorosa.org\/?p=273"},"modified":"2011-10-24T12:39:08","modified_gmt":"2011-10-24T12:39:08","slug":"no-elevador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/?p=273","title":{"rendered":"No elevador"},"content":{"rendered":"<p>Marcelo Coelho  <a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/ilustrad\/fq0907200826.htm\">escreveu ontem na FSP sobre cordialidade no elevador<\/a>. A leitura do texto fez-me lembrar de uma situa\u00e7\u00e3o vivida em dos elevadores da PUC-SP, ano passado.<\/p>\n<p>Nessa ocasi\u00e3o, o painel indicador do movimento do elevador n\u00e3o estava funcionando, de maneira que n\u00e3o dava pra saber se o elevador estava subindo ou descendo para o estacionamento. Ao parar no t\u00e9rreo, estava vazio. Na d\u00favida, entrei &#8211; juntamente com duas d\u00fazias de jovenzinhos, que, como eu, estavam intencionado em subir. Contrariando-nos, o movimento do elevador foi descendente.<\/p>\n<p>Apinhado, o elevador parou no subsolo. Um grupo de professoras aguardava-o. Ficaram indignadas. &#8220;<em>\u00c9 um absurdo rapazes e mo\u00e7as saud\u00e1veis usarem o elevador. Tivesse a sa\u00fade de voc\u00eas eu ficaria envergonhada<\/em>&#8220;, dizia uma, enquanto impedia o elevador de fechar a porta pela presen\u00e7a de seu enorme corpanzil. Da\u00ed, frases gentis como &#8220;<em>Eu exijo que voc\u00eas saiam da\u00ed<\/em>&#8220;, ou &#8220;<em>A PUC humilha seus professores com essa aus\u00eancia de ascensorista<\/em>&#8220;. Umas duas ou tr\u00eas garotas sa\u00edram do elevador. A maioria ficou. Silenciosa, sem arredar o p\u00e9. Do subsolo ao quarto andar foi uma lista de improp\u00e9rios que jamais imaginei que caberia numa boca de professora p\u00f3s doutora.<\/p>\n<p align=\"left\">A maioria da galera, mesmo assim, pareceu-me indiferente, como se n\u00e3o tivesse nada a ver com aquilo ali.<\/p>\n<p align=\"center\">~*~<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, coisa doida essa. Voc\u00ea \u00e9 obrigado a ficar cinco cent\u00edmetros do corpo de outra pessoa, olhos nos olhos, sente a respira\u00e7\u00e3o e etc. mas n\u00e3o lhe traz intimidade suficiente para dizer um bom dia. Pelo contr\u00e1rio: h\u00e1 um esfor\u00e7o em evitar os olhos do outro. Meu entendimento do que \u00e9 um conv\u00edvio social saud\u00e1vel me impede de sacar que esse &#8220;<em>afastamento na proximidade<\/em>&#8221; pode ser salutar.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, creio que o articulista, referindo-se ao elevador, exagerou ao dizer que<\/p>\n<blockquote><p><em>   Trata-se tamb\u00e9m, como qualquer  outro meio de transporte no Brasil,  de um local de embolamento, de  contato f\u00edsico. N\u00e3o se tem aqui a  mesma alergia que nos pa\u00edses anglo-sax\u00f5es \u00e0 proximidade corporal. <\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>H\u00e1 alergia sim &#8211; talvez n\u00e3o tanto quanto em outros pa\u00edses. Essa coisa da cordialidade brasileira  &#8211; quando os envolvidos s\u00e3o urbanos m\u00e9dios &#8211; n\u00e3o passa de um grande mito. Pode valer, sim, para a periferia (o que permite dizer que a cordialidade tende ao enfraquecimento nos degraus acima da pir\u00e2mide social).<\/p>\n<p>O elevador exemplifica o grande mal do modus vivendi urbano. Somos obrigados a ficar fisicamente pr\u00f3ximos de dezenas pessoas, mas ao mesmo tempo todos assumem a postura coletiva de distanciamento do outro. Cada qual esfor\u00e7ando em melhorar sua cara <em>blas\u00e9<\/em>, seu olhar indiferente. Esse comportamento est\u00fapido desumaniza o homem. Mas quem se interessa nisso, n\u00e3o \u00e9? \u00c9 cada qual no seu quadrado&#8230; e s\u00f3.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcelo Coelho escreveu ontem na FSP sobre cordialidade no elevador. A leitura do texto fez-me lembrar de uma situa\u00e7\u00e3o vivida em dos elevadores da PUC-SP, ano passado. 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