{"id":289,"date":"2008-08-15T19:32:03","date_gmt":"2008-08-15T23:32:03","guid":{"rendered":"http:\/\/julianorosa.org\/?p=289"},"modified":"2008-08-15T19:32:03","modified_gmt":"2008-08-15T23:32:03","slug":"tu-errou-prof","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/?p=289","title":{"rendered":"Tu errou, prof!"},"content":{"rendered":"<p>Estou completando oito anos de minha primeira entrada em sala de aula como professor. Tem sido uma longa jornada. Permite-me, com algum ar de galhofa, dizer que possuo not\u00f3ria experi\u00eancia. E, tamb\u00e9m, que coleciono muitas hist\u00f3rias boas &#8211; outras nem tanto. Os epis\u00f3dios mais traum\u00e1ticos coincidiram, claro, com os primeiros passos, diminuindo em fun\u00e7\u00e3o da aprendizagem docente.<\/p>\n<p>Um\u00a0 scrap no orkut, hoje, avisando que minha rede social aumenta um n\u00famero, lembrou-me de um dos \u00faltimos &#8211; e talvez o maior &#8211; erros que cometi enquanto professor. Segue o relato.<\/p>\n<p><em><strong>2004, em uma escola confessional do interior do Tocantins<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Aproximava o final do ano letivo. As provas haviam sido aplicadas e, para aqueles alunos que n\u00e3o conseguiram a m\u00e9dia bimestral, restava uma oportunidade (dos alunos ganharem nota e do professor deixar fluir toda sua neura sad\u00f4): a arg\u00fci\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para controlar a disciplina da sala &#8211; j\u00e1 que a atividade envolvia apenas alguns alunos &#8211; combinava com a turma que todos, indistintamente, somavam um ponto de participa\u00e7\u00e3o. O comportamento na sala, durante a avalia\u00e7\u00e3o oral, \u00e9 que diria se esse ponto seria intelgramente recebido pelo aluno ou n\u00e3o. Dessa forma, qualquer anormalidade (conversa, principalmente), era punida com a perda de um d\u00e9cimo (hhhuummm&#8230; &#8220;<em>surveiller et punir<\/em>&#8220;, hein?).<\/p>\n<p>Esse era o combinado desde o in\u00edcio do ano e realizado duas vezes por semestre. Tudo ia, assim, dando certo (!),\u00a0 at\u00e9 quando&#8230;<\/p>\n<p><strong><em>A turma<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Das dez turmas que eu tinha no col\u00e9gio, aquela era uma turma especial. Especialmente porque tenho uma queda por dois perfis de aluno: os metralhadores (inteligentes e que gostam de mostrar que s\u00e3o) e os piadistas (que interrompem a aula, a qualquer hora, com uma tirada ou piada engra\u00e7ada). E essa era uma turma repleta de alunos que possu\u00edam os dois perfis.<\/p>\n<p>Ao gostar muito deles, eu tamb\u00e9m queria, sempre, mostrar minhas melhores qualidades (ou pelo menos aquelas que eu gostaria que fossem&#8230;), numa tentativa de alimentar sentimentos m\u00fatuos. Como libriano, procurava sempre exercitar meu senso de justi\u00e7a. Mas isso n\u00e3o bastava: <em>era necess\u00e1rio inform\u00e1-los, rotineiramente, dessa minha virtude<\/em>. \ud83d\ude42<\/p>\n<p><strong>A aluna<\/strong><\/p>\n<p>Let\u00edcia. Era uma das mais inteligentes da sala. N\u00e3o&#8230; corrijo. <em>Era uma das mais inteligentes da escola<\/em>. S\u00e9rio. Sua avalia\u00e7\u00e3o era sempre corrigida primeiro, naquele instante em que, por n\u00e3o estar cansado de ler tanta bobagem, a gente sente prazer em ser professor, em ver o resultado positivo de uma sequencia de aulas. Em se tratando de prova de Let\u00edcia, nunca havia decep\u00e7\u00e3o. Nas provas dissertativas, a garotinha escrevia exatamente aquilo que o professor gostaria de ler. Al\u00e9m disso &#8211; e \u00e9 bom dizer &#8211; era uma menina de refinada educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um espet\u00e1culo, enfim.<\/p>\n<p><em><strong>A bobagem<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Pois bem. A aula corria tranquilamente. A normalidade, ali, era a maioria dos alunos obterem a totalidade dos pontos de participa\u00e7\u00e3o. Era. At\u00e9 que&#8230;<\/p>\n<p>Uma voz ecoa, sussurrada, pela sala. Era Let\u00edcia conversando com um colega. Os alunos se voltam para o &#8220;just\u00edssimo professor&#8221;, duvidando que houvesse algum tipo de puni\u00e7\u00e3o. Como se dissessem: &#8220;<em>\u00e9 a queridinha do professor&#8230;<\/em>&#8220;. Com ar de gravidade, eu chamo seu nome e assinalo na lista de participa\u00e7\u00e3o. Foi o \u00fanico bimestre que ela n\u00e3o ficou com 10. Por dentro, eu me sentia um bobo, um primata autorit\u00e1rio que n\u00e3o sabe utilizar o m\u00ednimo de bom senso. (ali\u00e1s, &#8220;nota de participa\u00e7\u00e3o&#8221; j\u00e1 \u00e9 uma coisa, em si, muito problem\u00e1tica. Maiores esclarecimentos <a href=\"http:\/\/www.anped.org.br\/reunioes\/29ra\/trabalhos\/trabalho\/GT12-2508--Int.pdf\">aqui<\/a>.)<\/p>\n<p><strong><em>A repercuss\u00e3o<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A galera do ol\u00e9 parece que gostou do tratamento igualit\u00e1rio que, naquele momento, ficou representado. Let\u00edcia n\u00e3o. N\u00e3o via raz\u00e3o em ter sua nota diminu\u00edda. N\u00e3o achava justo porque n\u00e3o havia atrapalhado a argui\u00e7\u00e3o. E &#8211; caraca! &#8211; as l\u00e1grimas sa\u00edram. N\u00e3o era um choro suave, desses que a gente libera quando o Brasil perde a copa. Era daqueles terr\u00edveis, como se a gente tivesse perdido algu\u00e9m querido. Provavelmente n\u00e3o dei sinal do enorme constrangimento sentido. Nem do absurdo peso na consci\u00eancia. E o sinal bate. E o ano termina. E ela muda de escola. Eu tamb\u00e9m. Eu mudo de cidade, de estado, enfim, hist\u00f3ria acabada.<\/p>\n<p>At\u00e9 que o orkut aparece. E concede-me a chance de exorcizar o erro. Assim, dessa forma, soltando apressadamente as letras e, certamente, a cada frase me sentindo mais leve por n\u00e3o ter deixado nenhum trauma na guria. \ud83d\ude09<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estou completando oito anos de minha primeira entrada em sala de aula como professor. Tem sido uma longa jornada. Permite-me, com algum ar de galhofa, dizer que possuo not\u00f3ria experi\u00eancia. E, tamb\u00e9m, que coleciono muitas hist\u00f3rias boas &#8211; outras nem tanto. 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