{"id":370,"date":"2007-01-30T00:59:29","date_gmt":"2007-01-30T00:59:29","guid":{"rendered":"http:\/\/julianorosa.org\/?p=4"},"modified":"2007-01-30T00:59:29","modified_gmt":"2007-01-30T00:59:29","slug":"o-individuo-a-sociedade-e-o-meio-ambiente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/?p=370","title":{"rendered":"O indiv\u00edduo, a sociedade e o meio ambiente"},"content":{"rendered":"<p>Algum tempo atr\u00e1s, estava participando de um evento sobre educa\u00e7\u00e3o ambiental, apresentada em seu j\u00e1 cl\u00e1ssico vi\u00e9s, em que se privilegia a responsabiliza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo pelos grandes problemas que afligem a sociedade humana do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Em dado momento, a palestrante colocou-nos um exemplo simples, pr\u00f3ximo de nosso cotidiano, do que podemos fazer para contribuir para um mundo melhor. Dizia ela que, em sua empresa, foi decidido que n\u00e3o mais usaria copos descart\u00e1veis no bebedouro, uma vez que o petr\u00f3leo \u00e9 um recurso finito e, dessa forma, poder\u00edamos contribuir com um futuro mais justo para todos.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a maior parte dos funcion\u00e1rios fazia (ela inclusive), por quatro vezes, o trajeto de ida e volta ao trabalho em possantes autom\u00f3veis.<\/p>\n<p>Da\u00ed fica a quest\u00e3o: a apropria\u00e7\u00e3o do \u2018politicamente correto\u2019, do \u2018bom mocismo\u2019, sem nenhum tipo de reflex\u00e3o s\u00e9ria sobre o problema ambiental, sempre ir\u00e1 produzir aberra\u00e7\u00f5es desse tipo.<\/p>\n<p>J\u00e1 escrevi aqui mesmo, l\u00e1 no in\u00edcio do blog, e provocativamente, que o homem n\u00e3o polui o meio ambiente. E n\u00e3o \u00e9 porque a mulher tamb\u00e9m polui, como algum engra\u00e7adinho poderia concluir; mais do que isso, \u00e9 atrav\u00e9s da rela\u00e7\u00e3o do ser humano com a natureza, mediatizado por uma determinada forma de organiza\u00e7\u00e3o social, que teremos o grau de interfer\u00eancia da sociedade na natureza.<\/p>\n<p>Prova disso \u00e9 que o mesmo homem consegue, em tempos e espa\u00e7os diferentes, ter rela\u00e7\u00f5es com a natureza em diversos graus de apropria\u00e7\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o. Englobar na entidade \u2018homem\u2019 um ind\u00edgena no Alto Solim\u00f5es e um madeireiro em Altamira \u00e9 suficientemente contradit\u00f3rio para n\u00e3o nos exigir mais linhas de argumenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se entendemos, por conseguinte, que a a\u00e7\u00e3o do ser humano \u00e9 orientada por determinadas formas de organiza\u00e7\u00e3o social, colocam-se algumas dificuldades para a biologia na an\u00e1lise dos problemas ambientais. O homem deixa de ser uma esp\u00e9cie animal para assumir toda a complexidade do \u2018ser social\u2019.<\/p>\n<p>E que de sociedade falamos hoje? Evidentemente, daquela que valoriza o lucro e incentiva o consumo desenfreado. Da\u00ed, \u00e9 \u2018natural\u2019 que haja uma explora\u00e7\u00e3o da natureza como jamais vista e que se tenha uma gigantesca produ\u00e7\u00e3o de lixo.<\/p>\n<p>E como o indiv\u00edduo se encaixa nessa hist\u00f3ria toda? Diz Antonio Gramsci, importante intelectual italiano morto nos por\u00f5es fascistas de Mussolini, que o indiv\u00edduo comum tem poder limitado de transforma\u00e7\u00e3o social, o que concordamos integralmente. O mesmo n\u00e3o se pode dizer da associa\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos em determinada causa. Para Gramsci,<\/p>\n<p>\u2018<em>o indiv\u00edduo pode multiplicar-se por um n\u00famero imponente de vezes e obter uma mudan\u00e7a bem mais radical do que \u00e0 primeira vista pode parecer poss\u00edvel.<\/em>\u2019*<\/p>\n<p>Aqui, e \u00e9 por demais \u00f3bvio, a inst\u00e2ncia de decis\u00e3o saltou do indiv\u00edduo para o coletivo. A decis\u00e3o inicial \u00e9 individual, mas a efic\u00e1cia dos resultados passa por uma a\u00e7\u00e3o coletiva. N\u00e3o basta uma decis\u00e3o do indiv\u00edduo. O peso est\u00e1 no agir coletivo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se tem d\u00favida, por outro lado, que os grandes problemas ambientais do s\u00e9culo XXI partem de decis\u00f5es corporativas. George Bush, ao n\u00e3o ratificar o Tratado de Kioto, abalizou sua decis\u00e3o mais pelos interesses das grandes empresas estadunidenses do que por alguma especula\u00e7\u00e3o moral ou \u00e9tica ambientalista.<\/p>\n<p>Se s\u00e3o as empresas as maiores contribuintes para a polui\u00e7\u00e3o ambiental, h\u00e1 de se pensar como responsabilizar uma pessoa jur\u00eddica por uma desrespeito \u00e0s normas morais institu\u00eddas na forma da lei. Apesar da impossibilidade de castigo f\u00edsico, <a href=\"http:\/\/jus2.uol.com.br\/doutrina\/texto.asp?id=3630\">Rodriguo Alves da Silva<\/a> demonstra que \u00e9 juridicamente pass\u00edvel de ser responsabilizada uma empresa que causa dist\u00farbio ambiental.<\/p>\n<p>Ora, e a t\u00e3o propagada Certifica\u00e7\u00e3o ISO, os selos verdes, a responsabilidade ambiental de que tanto falam as empresas?<\/p>\n<p>Certamente n\u00e3o \u00e9 por bondade dos empres\u00e1rios, nem por que est\u00e3o, primeiramente, interessados em um ambiente mais saud\u00e1vel. \u00c9 lucro mesmo. \u00c9 aceita\u00e7\u00e3o de seus produtos em mercados internacionais, sim.<\/p>\n<p>E toda essa press\u00e3o social em torno daquilo que \u00e9 ecologicamente saud\u00e1vel n\u00e3o seria poss\u00edvel sem a importante atua\u00e7\u00e3o de in\u00fameros movimentos ecol\u00f3gicos s\u00e9rios que por a\u00ed existem.<\/p>\n<p>J\u00e1 nos &#8216;finalmentes&#8217;, abro par\u00eantesis para generalizar e provocar:<\/p>\n<p>Considerando ainda que os recursos naturais s\u00e3o apropriados de forma desigual, resta ainda saber se a instru\u00edda classe m\u00e9dia est\u00e1 antenada ecologicamente porque se preocupa com o fim de seus privil\u00e9gios \u2013 uma vez que seu desfrute consumista est\u00e1 em jogo \u2013 ou para atenuar o peso na consci\u00eancia por terem clareza de que boa parte dos recursos naturais \u00e9 gasto em seu deleite. Pode, eventualmente, ser consci\u00eancia planet\u00e1ria, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Para concluir, um outro exemplo desses discursos hist\u00e9ricos se d\u00e1 quando discutimos o uso da \u00e1gua. For\u00e7am tanto a barra no alarmismo que, sinceramente, me sinto culpado por beber \u00e1gua. <a href=\"http:\/\/www.verbeat.org\/blogs\/lixotipoespecial\/arquivos\/2006\/05\/verde_e_amarelinho.html\">S\u00f3 n\u00e3o paro de tomar banho&#8230;<\/a><\/p>\n<p><em><font size=\"1\">* A cita\u00e7\u00e3o foi retirada de &#8216;Obras Escolhidas&#8217;, edi\u00e7\u00e3o da Martins Fontes, publicada em 1978<\/font><\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Algum tempo atr\u00e1s, estava participando de um evento sobre educa\u00e7\u00e3o ambiental, apresentada em seu j\u00e1 cl\u00e1ssico vi\u00e9s, em que se privilegia a responsabiliza\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo pelos grandes problemas que afligem a sociedade humana do s\u00e9culo XXI. 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