{"id":411,"date":"2009-10-06T00:39:22","date_gmt":"2009-10-06T00:39:22","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.julianorosa.org\/?p=411"},"modified":"2009-12-03T21:21:10","modified_gmt":"2009-12-03T21:21:10","slug":"reflexoes-sobre-um-epitafio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/?p=411","title":{"rendered":"Reflex\u00f5es sobre um epit\u00e1fio"},"content":{"rendered":"<p>Bem, ele esperava qualquer sensa\u00e7\u00e3o asquerosa, nojenta, odiosa. N\u00e3o a indiferen\u00e7a. O safado morreu. Desapareceu a bestial figura que, aproveitando da parentela, agiu <em>pederestamente<\/em>. Atitude, evidentemente, foi ocultada de todos; pelo monstro, por motivos \u00f3bvios, e, pela v\u00edtima, por medo da repercuss\u00e3o que esse fato traria.<\/p>\n<p>Embora crian\u00e7a, na ingenuidade de seus poucos anos, desconfiava que aquilo que foi feito era muito feio, era muito grave. Ou porque a preocupa\u00e7\u00e3o obsessiva do \u2018tio\u2019 em esconder o acontecido, em exigir o segredo, se tal coisa fosse normal?<\/p>\n<p>Mas, enfim, ele est\u00e1 morto.\u00a0A morte foi atroz, das mais dolorosas que a natureza pode oferecer a um corpo humano.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi suficiente, por\u00e9m, para condicionar um sorriso de satisfa\u00e7\u00e3o no rosto da v\u00edtima. N\u00e3o despertou nenhum sentimento de vingan\u00e7a, de justi\u00e7a feita, a despeito dos anos e anos decorridos at\u00e9 ent\u00e3o.<\/p>\n<p>A aus\u00eancia de qualquer manifesta\u00e7\u00e3o de alegria estava em total sintonia com a indiferen\u00e7a sentida na alma.<\/p>\n<p>Ele, o \u2018tio\u2019, simplesmente n\u00e3o mais existia no mundo corporal. Ele desapareceu, assim como sumia, em sua inf\u00e2ncia, os barquinhos de papel depositados na suave correnteza dos riachos no interior de Goi\u00e1s. N\u00e3o deixavam saudade, n\u00e3o faziam falta: o guri compreendia apenas que aquele era o curso natural das coisas da vida. N\u00e3o mais via a pequenina nau de papel, e nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o aflorava. A natureza haveria de cuidar do destino do barquinho. O objeto flutuante s\u00f3 era \u201cdele\u201d enquanto a vista o discernisse. Se fizesse parte de \u201csua\u201d paisagem, era seu. E sendo \u201csua\u201d, a ego\u00edsta crian\u00e7a se importava, pois cuidava \u2013 e bem &#8211; daquilo que fazia parte de si.<\/p>\n<p>O menino \u2013 agora ocupando uma forma humana com fei\u00e7\u00f5es adultas \u2013 ainda especula o que poderia ser diferente se o safado n\u00e3o tivesse cometido tal torpeza. Seria menos t\u00edmido? Teria mais sucesso com as meninas na adolesc\u00eancia? Seria menos inseguro? Teria menos pudor em expressar seu pensamento, independente das pessoas que o cercam? Seria mais apegado a fam\u00edlia? Seria menos emotivo e melanc\u00f3lico? Seria menos acovardado frente a dura realidade que a\u00ed est\u00e1 posta?<\/p>\n<p>Absorto, pensa \u2013 um pouco frustrado &#8211; que tudo poderia ter sido diferente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bem, ele esperava qualquer sensa\u00e7\u00e3o asquerosa, nojenta, odiosa. N\u00e3o a indiferen\u00e7a. O safado morreu. Desapareceu a bestial figura que, aproveitando da parentela, agiu pederestamente. Atitude, evidentemente, foi ocultada de todos; pelo monstro, por motivos \u00f3bvios, e, pela v\u00edtima, por medo da repercuss\u00e3o que esse fato traria. Embora crian\u00e7a, na ingenuidade de seus poucos anos, desconfiava<span class=\"excerpt-ellipsis\">&#8230;<\/span><\/p>\n<p><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/blog.julianorosa.org\/?p=411\" itemprop=\"url\">Continue Reading<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-411","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-rascunho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/411","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=411"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/411\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":438,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/411\/revisions\/438"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=411"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=411"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=411"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}