{"id":623,"date":"2011-10-26T21:40:39","date_gmt":"2011-10-26T21:40:39","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.julianorosa.org\/?p=623"},"modified":"2011-10-27T21:30:05","modified_gmt":"2011-10-27T21:30:05","slug":"brasilia-e-sua-suposta-falta-de-capitalidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/?p=623","title":{"rendered":"Bras\u00edlia e sua suposta falta de capitalidade"},"content":{"rendered":"<p>Pesquisando sobre identidades espaciais, me deparei com a tese \u00a0&#8220;<em><strong>Bras\u00edlia: de espa\u00e7o a lugar, de sert\u00e3o a capital (1956-1960<\/strong><\/em>)&#8221; (UnB, 2008, doutorado em Hist\u00f3ria). No geral, \u00e9 um estudo brilhantemente elaborado. Escrito em primeira pessoa, o texto permite ao leitor &#8220;viajar&#8221; no trajeto cient\u00edfico da pesquisadora. Ter mais de trezentas p\u00e1ginas, nesse caso, \u00e9 um benef\u00edcio para quem l\u00ea.<\/p>\n<p>Bem, mas n\u00e3o foi\u00a0 isso (ou somente por isso) o que me motivou a escrever esse texto. Entre v\u00e1rios conceitos interessantes, a autora, Ana L. Gomes, recorre a &#8220;capitalidade&#8221; para distinguir Bras\u00edlia da cidade do Rio de Janeiro. Nesse sentido, segundo a autora, falta &#8220;capitalidade&#8221; a Bras\u00edlia e, mesmo distante meio s\u00e9culo da transfer\u00eancia da capital, a cidade do Rio de Janeiro a conserva.<\/p>\n<p>Primeiro, vamos ao conceito de capitalidade (que, confesso, era novo pra mim): segundo a autora, capitalidade \u00a0seria, em linhas gerais, a &#8220;<em>capacidade de representar a na\u00e7\u00e3o<\/em>&#8221; (p. 55). Assim, mesmo Bras\u00edlia sendo a capital federal, ela &#8220;<em>n\u00e3o consegue representar a na\u00e7\u00e3o<\/em>&#8221; (p. 109). Essa defici\u00eancia em representar o Brasil talvez possa ser diagnosticado pela aus\u00eancia de Bras\u00edlia nas imagens de Brasil; na verdade, abundam associa\u00e7\u00f5es do Brasil na m\u00eddia (e, talvez em mesmo grau, nas propagandas para fisgar turistas l\u00e1 fora, no <em>estrangeiro<\/em>), com o &#8220;<em>litoral, por exemplo, ao carnaval, ao Rio, \u00e0s praias<\/em>&#8221; (p. 12).<\/p>\n<p>A rigor, esse sentido de capitalidade fica preso a representa\u00e7\u00e3o da cidade no imagin\u00e1rio popular, ou, em outras palavras, legitima a cidade-capital e seu sentido de capitalidade apenas para a <em>cidade-s\u00edmbolo<\/em>, seja do estado, seja do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Peguemos, pois, o exemplo do pa\u00eds que nos deu inspira\u00e7\u00e3o para uma Rep\u00fablica Federativa: os Estados Unidos. Os EUA n\u00e3o tem sua imagem relacionada de imediato a sua capital. Nova Iorque e Los Angeles, por exemplo, tem muito mais peso representativo da na\u00e7\u00e3o americana do que Washington. A mesma regra vale para os estados americanos. A capital da California n\u00e3o \u00e9 Los Angeles, nem San Francisco (\u00e9 Sacramento); da Florida n\u00e3o \u00e9 Miami, nem Orlando (\u00e9 Tallahassee); da mesma forma que Nova Orleans n\u00e3o \u00e9 a capital de Louisiana (\u00e9 Baton Rouge), Chicago n\u00e3o \u00e9 \u00a0capital de Illinois (\u00e9 Springfield), Detroit n\u00e3o \u00e9 capital de Michigan (\u00e9 Lansing) e nem Nova Iorque \u00e9 capital do Estado de Nova Iorque (\u00e9 Albany). S\u00e3o v\u00e1rios e v\u00e1rios exemplos, s\u00f3 nos EUA.<\/p>\n<p>Talvez &#8211; e essa \u00e9 minha hip\u00f3tese &#8211; n\u00e3o faz sentido para as na\u00e7\u00f5es modernas escolher uma cidade-s\u00edmbolo para ser sua capital. O conceito de modernidade, ali\u00e1s, \u00e9 um dos motores da\u00a0ideia\u00a0de construir novas cidades para serem capitais. Assim foi com Aracaju (Alagoas), Belo Horizonte (Minas), Goi\u00e2nia (Goi\u00e1s), Boa Vista (Roraima) e Palmas (Tocantins), no Brasil. Certamente haviam cidades, nesses estados, que representavam imageticamente o Estado\u00a0e, portanto, possu\u00edam a tal capitalidade.<\/p>\n<p>Posso estar errado, evidentemente, mas me parece que a escolha de uma capital, hoje, n\u00e3o passa pelo sentido dado de &#8220;capitalidade&#8221;. N\u00e3o foi com v\u00e1rias cidades modernas e, certamente, n\u00e3o foi com Bras\u00edlia. No entanto, ningu\u00e9m duvida do sentido e import\u00e2ncia de Bras\u00edlia &#8220;apenas&#8221; por ser a capital federal. Retirem toda a estrutura pol\u00edtico-administrativa de Bras\u00edlia, por exemplo, e a cidade certamente &#8220;murchar\u00e1&#8221;. \u00a0Milhares de pessoas s\u00f3 est\u00e3o em Bras\u00edlia porque foram atra\u00eddos \u00a0pelo sentido de &#8220;capital&#8221; que ela encerra em si mesma.<\/p>\n<p>Mesmo n\u00e3o considerando &#8211; ou, pelo menos, duvidando &#8211; da capitalidade de Bras\u00edlia, a autora \u00e9 muito generosa com a capital do Brasil. Para ela, &#8220;a capitalidade de um pa\u00eds talvez fosse muito pouco para as dimens\u00f5es que Bras\u00edlia teve e tem no sentido da constru\u00e7\u00e3o m\u00edtica da na\u00e7\u00e3o e de nossa identidade&#8221; (p. 307), o que, certamente, n\u00e3o h\u00e1 como discordar.<\/p>\n<pre><\/pre>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pesquisando sobre identidades espaciais, me deparei com a tese \u00a0&#8220;Bras\u00edlia: de espa\u00e7o a lugar, de sert\u00e3o a capital (1956-1960)&#8221; (UnB, 2008, doutorado em Hist\u00f3ria). No geral, \u00e9 um estudo brilhantemente elaborado. Escrito em primeira pessoa, o texto permite ao leitor &#8220;viajar&#8221; no trajeto cient\u00edfico da pesquisadora. Ter mais de trezentas p\u00e1ginas, nesse caso, \u00e9 um<span class=\"excerpt-ellipsis\">&#8230;<\/span><\/p>\n<p><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/blog.julianorosa.org\/?p=623\" itemprop=\"url\">Continue Reading<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9,10],"tags":[],"class_list":["post-623","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geografia","category-leitura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/623","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=623"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/623\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":626,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/623\/revisions\/626"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=623"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=623"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=623"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}