{"id":670,"date":"2011-11-28T20:21:15","date_gmt":"2011-11-28T20:21:15","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.julianorosa.org\/?p=670"},"modified":"2011-11-28T20:21:15","modified_gmt":"2011-11-28T20:21:15","slug":"umbiguianas-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/?p=670","title":{"rendered":"Umbiguianas, I"},"content":{"rendered":"<p>I.<\/p>\n<p>Passaram-se mais de trinta anos. Pouca certeza, pouca tranquilidade, e acima de tudo, pouco dinheiro. Definitivamente, n\u00e3o era esse o sonho. Porque isso \u00e9 pesadelo.<\/p>\n<p>II.<\/p>\n<p>Descubro que n\u00e3o tenho nada em mim bom o suficiente para, narcisisticamente, me orgulhar. N\u00e3o jogo bem futebol, n\u00e3o dirijo bem, n\u00e3o gosto de cachorro. Sequer sei contar boas piadas. At\u00e9 estudar &#8211; que sempre contei vantagem sobre isso &#8211; anda me pregando pe\u00e7as. \u00c9, \u00e9 minha mem\u00f3ria. Esqueci o autor d&#8217;O Ateneu, uma boa met\u00e1fora do elevador do Zizek, provas na cantina, responder um importante e-mail, e etc. Do \u00faltimo livro que li, Plataforma, s\u00f3 lembro pequenos fragmentos, o suficiente para qualquer um duvidar do fato de que, sim, eu li o livro. E isso porque n\u00e3o faz nem dois meses que fechei o livro\u00a0pela \u00faltima vez.<\/p>\n<p>III.<\/p>\n<p>Morei numa pequena cidade no interior do Brasil que orgulhosamente se apresenta como a capital da amizade. Brincava com isso, porque achava que a amizade correu l\u00e9guas da cidade. Uma bobagem. Porque, afinal, a compara\u00e7\u00e3o que fazia era com a cidade natal, farta de parentes e sobrando amigos de inf\u00e2ncia, da faculdade, da igreja. Uma r\u00e1pida visita, depois de mais de tr\u00eas anos da mudan\u00e7a para Bras\u00edlia, me fez rever conceitos. L\u00e1, sim, \u00e9 a capital da amizade.<\/p>\n<p>IV.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o urbana da proximidade f\u00edsica e, ao mesmo tempo, estranhamento, mostra que a ra\u00e7a humana n\u00e3o tem jeito mesmo. Pior ainda \u00e9 chamar bons modos de &#8220;urbanidade&#8221;. Quem j\u00e1 visitou propriedades rurais sabe do que falo. N\u00e3o h\u00e1 povo mais carinhoso e receptivo do que os &#8216;campesinos&#8217;. As habita\u00e7\u00f5es esparsas fazem com que os vizinhos pouco se v\u00eaem. E quando isso acontece, \u00e9 motivo de festa. J\u00e1 meus vizinhos n\u00e3o t\u00eam sequer o h\u00e1bito de se cumprimentarem. Sofremos de excesso de proximidade, \u00e9 isso? Quer dizer que quanto mais pr\u00f3ximo, mais distante? Quanto maior a possibilidade de relacionamentos, pior? Quanto mais posso ser humano, dentro de todas as magn\u00edficas possibilidades do relacionamento entre pessoas, mais eu me nego enquanto tal?<\/p>\n<p>V.<\/p>\n<p>Datena vocifera na TV. Sangue escorre pelo aparelho. Quero descanso. Quero paz. Deixa eu ir ali assistir Dexter. Porque na fic\u00e7\u00e3o tudo \u00e9 sempre melhor do que na realidade.<\/p>\n<p>VI.<\/p>\n<p>Sem desanimar do blog, porque, afinal, continua ainda sendo mais barato do que pagar terapeuta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>I. Passaram-se mais de trinta anos. Pouca certeza, pouca tranquilidade, e acima de tudo, pouco dinheiro. Definitivamente, n\u00e3o era esse o sonho. Porque isso \u00e9 pesadelo. II. Descubro que n\u00e3o tenho nada em mim bom o suficiente para, narcisisticamente, me orgulhar. N\u00e3o jogo bem futebol, n\u00e3o dirijo bem, n\u00e3o gosto de cachorro. 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