{"id":731,"date":"2014-09-08T18:17:51","date_gmt":"2014-09-08T21:17:51","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.julianorosa.org\/?p=731"},"modified":"2014-09-09T11:53:48","modified_gmt":"2014-09-09T14:53:48","slug":"ruinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/?p=731","title":{"rendered":"Ru\u00ednas"},"content":{"rendered":"<p>Ru\u00ednas s\u00e3o rugas do passado no presente. S\u00e3o mem\u00f3rias que assolam o espa\u00e7o, lembran\u00e7as de um tempo que, h\u00e1 muito, j\u00e1 se foi. Projetam um estranho sentimento de estranheza ao visitante de \u00e1ureos tempos, e uma falsa sensa\u00e7\u00e3o de nostalgia ao ne\u00f3fito.<\/p>\n<p>Em &#8220;Piet\u00e1&#8221; (Cor\u00e9ia do Sul, 2012) ,\u00a0uma \u00e1rvore \u00e9 plantada diante de um velho e abandonado edif\u00edcio. \u00c9 uma esp\u00e9cie de comemora\u00e7\u00e3o do reencontro entre Kang-do, um absurdamente solit\u00e1rio e violento cobrador de d\u00edvidas, e sua m\u00e3e, anos ap\u00f3s o abandono materno.\u00a0A velha constru\u00e7\u00e3o, entretanto, \u00e9 muito mais do que mero coadjuvante na cena. Embora n\u00e3o se torne onipresente no decorrer do filme, veremos, no final, que o plantio da \u00e1rvore n\u00e3o poderia ser em outro lugar. Vingan\u00e7a e hostilidade se simbolizam nas ru\u00ednas, como monumental \u00f3dio e amargura que, para se consumarem, simulam-se do\u00e7ura. O pr\u00e9dio \u00e9 uma quase morte, posto que j\u00e1 n\u00e3o representa mais vida. Pouco importa as lembran\u00e7as evocadas pelas paredes decadentes. N\u00e3o h\u00e1 mais vida. N\u00e3o h\u00e1 mais esperan\u00e7a. Em um percurso estranho, angustiante, passamos perplexos pela viol\u00eancia, amor, reden\u00e7\u00e3o e morte.<\/p>\n<p>Mas nem sempre\u00a0as ru\u00ednas s\u00e3o hostis ao estranho.\u00a0S\u00e3o ref\u00fagios para os marginalizados, destitu\u00eddos de qualquer esperan\u00e7a de um lugar salubre para chamar de lar. Em &#8220;Para sempre Lilya&#8221; (Su\u00e9cia, 2002), a protagonista adolescente e seu amigo Volodya, de apenas doze anos, encontram abrigo em um\u00a0predio\u00a0abandonado na periferia de uma an\u00f4nima cidade sovi\u00e9tica (a grava\u00e7\u00e3o foi feita em Paldiski, cidade estoniana). \u00c9 o lar de Volodya, depois de ser expulso de casa pelo pai alcoolatra. Volodya encontra em Lilya sua refer\u00eancia humana. Apaixona-se. Amor imposs\u00edvel, \u00f3bvio. Se o amor o anestesia da dor da vida, em Lilya a impulsiona para uma nova vida fora de seu pa\u00eds.\u00a0A Su\u00e9cia a esperaria para viver uma vida digna, junto ao &#8220;homem-que-se-importava-de-verdade-com-ela&#8221;. Ao se ver amarrada, na Su\u00e9cia, \u00a0a um esquema de explora\u00e7\u00e3o sexual, chega a vez de Lilya, agora tamb\u00e9m sem amor, se deparar com a crueza da realidade dura, violenta, sem alternativa \u00e0 dor. O velho predio administrativo sovi\u00e9tico em ru\u00ednas era, de fato, muito mais acolhedor e protetor do que qualquer esperan\u00e7a de uma vida decente. Volodya amava Lilya. Em Volodya estava, mais do que seu presente: estava\u00a0seu futuro. O amor era vida.<\/p>\n<p>Em Lilya, mais do que em Kang-do, \u00a0a melancolia sai do personagem e toma todo o ambiente, em fluxo constante. As ru\u00ednas, antes uma esp\u00e9cie de conforto provis\u00f3rio, acabam sendo\u00a0apenas a antesala da decad\u00eancia da vida. Para Kang-do, as ru\u00ednas foram uma porta para a morte. Nesse mundo de muitos desejos e pouqu\u00edssimas realiza\u00e7\u00f5es, o fardo do fracasso \u00e9 observar as ru\u00ednas dos sonhos. Sonhos que se esfacelam aos borbot\u00f5es. Estaria certa Luciana Berlinck (Melancolia: rastros de dor e de perda, p. 154), ao dizer que &#8220;se tudo \u00e9 descart\u00e1vel e ef\u00e9mero, tudo se torna imediatamente ru\u00edna e a pr\u00f3pria sociedade, imersa em ru\u00ednas, \u00e9 melanc\u00f3lica. Eis porque o homem melanc\u00f3lico n\u00e3o \u00e9 excepcional nesta sociedade, ele \u00e9 o comum&#8221;? Sinceramente, n\u00e3o sei. Entretanto, ser &#8220;comum&#8221; j\u00e1 traz alguma esperan\u00e7a de normalidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ru\u00ednas s\u00e3o rugas do passado no presente. S\u00e3o mem\u00f3rias que assolam o espa\u00e7o, lembran\u00e7as de um tempo que, h\u00e1 muito, j\u00e1 se foi. 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