{"id":779,"date":"2014-12-17T12:14:51","date_gmt":"2014-12-17T15:14:51","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.julianorosa.org\/?p=779"},"modified":"2014-12-17T12:14:51","modified_gmt":"2014-12-17T15:14:51","slug":"pessimismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/?p=779","title":{"rendered":"Pessimismo"},"content":{"rendered":"<p>Ele era t\u00e3o pessimista que dava ao pessimismo outro nome: &#8220;realismo&#8221;. Ao contr\u00e1rio de todos os outros pessimistas que eu pude conhecer, ele n\u00e3o era um sujeito autodestrutivo, nem desejoso de que as coisas ficassem ainda piores. Vivia numa esp\u00e9cie de resigna\u00e7\u00e3o quanto \u00e0s desgra\u00e7as que lhe ocorriam (como ocorrem com qualquer outra pessoa &#8211; ele n\u00e3o era nada especial). Combinava esse jeito estranho de ver a vida com uma singular\u00a0melancolia: transformava as dores, as derrotas, os espinhos da vida, em algo mais f\u00e1cil de conviver. E o que era melhor: n\u00e3o reclamava da vida.<\/p>\n<p>Quando foi informado de\u00a0um tumor no intestino &#8211; o que h\u00e1 muito j\u00e1 desconfiava &#8211; desenvolveu uma inusitada filosofia. Explicava que a melhor morte era aquela que a ele estava sendo aplicada: diferente de tantas outras pessoas, ele poderia se despedir da vida aos poucos. A dor era controlada por doses de morfina, e lembrava dos chineses que esqueciam de seus problemas no \u00f3pio. N\u00e3o, ele n\u00e3o esquecia dos seus. Mas a letargia provocada pela morfina fazia mais agrad\u00e1vel o seu adeus a esse mundo.<\/p>\n<p>Dava-lhe certo prazer certificar-se da piedade de amigos ou do excesso de cuidado dos conhecidos. Era como se, a partir dali, fosse criada uma redoma com o intuito de bloquear\u00a0qualquer sensa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel, como se a dor de sua doen\u00e7a fosse j\u00e1 a cota suficiente para qualquer humano\u00a0suportar. Nada mais poderia lhe entristecer. Mas, qual, ele n\u00e3o estava triste! Entre cinismo e deboche sufocados, l\u00e1 no fundo ficava pensando se era muito dif\u00edcil as pessoas serem assim, t\u00e3o prestativas, se n\u00e3o soubessem da sua morte anunciada.<\/p>\n<p>E assim sua teoria de uma despedida feliz se converteu numa imperfeita c\u00f3pia do que desejava. N\u00e3o teve tempo de se despedir da vida como queria, porque seus amigos e conhecidos n\u00e3o mais o tratavam como um homem qualquer. Ele ansiava por outras dores: os personagens de contos de fadas que transformaram aqueles que o rodeavam\u00a0n\u00e3o mais permitiram viver a vida na intensidade desejada. Desejava dores que morfina n\u00e3o ameniza.<\/p>\n<p>E foi assim, pessimista com sua pr\u00f3pria filosofia, que partiu desse mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele era t\u00e3o pessimista que dava ao pessimismo outro nome: &#8220;realismo&#8221;. Ao contr\u00e1rio de todos os outros pessimistas que eu pude conhecer, ele n\u00e3o era um sujeito autodestrutivo, nem desejoso de que as coisas ficassem ainda piores. Vivia numa esp\u00e9cie de resigna\u00e7\u00e3o quanto \u00e0s desgra\u00e7as que lhe ocorriam (como ocorrem com qualquer outra pessoa &#8211;<span class=\"excerpt-ellipsis\">&#8230;<\/span><\/p>\n<p><a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/blog.julianorosa.org\/?p=779\" itemprop=\"url\">Continue Reading<\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[],"class_list":["post-779","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-rascunho"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/779","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=779"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/779\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":780,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/779\/revisions\/780"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=779"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=779"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=779"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}