{"id":940,"date":"2016-02-03T16:30:36","date_gmt":"2016-02-03T18:30:36","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.julianorosa.org\/?p=940"},"modified":"2016-02-03T17:22:11","modified_gmt":"2016-02-03T19:22:11","slug":"amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blog.julianorosa.org\/?p=940","title":{"rendered":"Amor"},"content":{"rendered":"<p><em>A beleza de tudo est\u00e1 em um amor correspondido. \u00c9 loucura pensar que um amor n\u00e3o-correspondido sobreviva ao tempo. Ser\u00e1?<\/em><\/p>\n<p><strong>Paix\u00e3o e amor<\/strong><\/p>\n<p>Especialistas dizem que a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/ciencia\/story\/2005\/11\/051128_amorcc.shtml\">paix\u00e3o pode durar pouco mais de um ano<\/a>. Paix\u00e3o seria aquela coisa fugaz, moment\u00e2nea, mas arrebatadora e fulminante. Com o tempo, se desfaria. O amor seria o que restasse (se restasse), perpetuando-se em amena forma.<\/p>\n<p>Diferente da paix\u00e3o, o amor seria racional, um projeto a longo prazo. J\u00e1 o casamento, a express\u00e3o pura do amor, sua inexor\u00e1vel consequ\u00eancia. Anos de conviv\u00eancia, filhos, patrim\u00f4nio, projetos juntos.<\/p>\n<p>A paix\u00e3o corresponde aquela chama que impulsionaria, no cora\u00e7\u00e3o dos enamorados, a necessidade de se verem mais pr\u00f3ximos e por tempo indeterminado. O impulso necess\u00e1rio para que o amor se instale, portanto. Parece loucura para muitos, porque o apaixonado v\u00ea no outro como seu. Coisifica-se o outro. \u00c9 algo a se ter posse.<\/p>\n<p><strong>Verdadeiro amor<\/strong><\/p>\n<p>O verdadeiro amor (o Amor), entretanto, \u00e9 a paix\u00e3o prolongada, perene, duradoura. Voc\u00ea n\u00e3o sabe quando foi exatamente que nasceu, mas sabe que ele apenas morrer\u00e1 quando a estrutura f\u00edsica que o mant\u00e9m se findar.<\/p>\n<p>Nisso, reciprocidade \u00e9 in\u00fatil. Basta que algu\u00e9m ame para existir amor. Se h\u00e1 reciprocidade, ok, beleza. N\u00e3o h\u00e1, entretanto, exig\u00eancia de reciprocidade. Se o amor for Amor, ele viver\u00e1 apesar do ambiente in\u00f3spito. O verdadeiro amor, o Amor, sobrevive a tudo \u2013 e nasce e se mant\u00e9m apesar de tudo.<\/p>\n<p><strong>Manolete<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"https:\/\/cdn.fstatic.com\/media\/movies\/covers\/2010\/07\/thumbs\/8be2a47a4716686a2c5b81ee673a0df9_jpg_290x478_upscale_q90.jpg\" alt=\"\" width=\"155\" height=\"230\" \/>No auge, o toureiro Manolete conhece Lupe, uma atriz de cabar\u00e9 conhecida na alta sociedade espanhola. Ela ser\u00e1 sua grande paix\u00e3o, jamais convertida em amor. Segundo o El Mundo, Lupe era \u201c<a href=\"http:\/\/www.elmundo.es\/cultura\/2014\/08\/15\/53ecd250ca4741e5748b4591.html\">a \u00fanica alegria de Manolete<\/a>\u201d.<\/p>\n<p>Como qualquer apaixonado, n\u00e3o se importa com o passado de Lupe . N\u00e3o se importa com a condi\u00e7\u00e3o de vida dela nesse momento \u2013 embora lhe cause arrepios, agora, qualquer mero flerte de Lupe com algum admirador. Como qualquer paix\u00e3o, se estabelece de forma incondicional. Seus amigos s\u00e3o a voz da raz\u00e3o. Sabem que aquilo \u00e9 loucura. Apelos em v\u00e3o.<\/p>\n<p>Manolete amava Lupe de tal maneira que dificilmente ela o entenderia. Ela se sentia aprisionada. \u201cN\u00e3o sou um can\u00e1rio na gaiola\u201d. O verdadeiro Amor sufoca. N\u00e3o concede liberdade ao outro. Agiganta o sentimento de posse.<\/p>\n<p><strong>A hist\u00f3ria de Adele H.<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"https:\/\/cdn.fstatic.com\/media\/movies\/covers\/2012\/04\/thumbs\/54e4679487ef3ca2ae08d4f435beec0a_3_jpg_210x312_crop_upscale_q90.jpg\" alt=\"\" width=\"162\" height=\"241\" \/>O tenente Albert Pison, da cavalaria Brit\u00e2nica, teve um breve relacionamento com a filha de Victor Hugo, Adele Hugo. Adele atravessou o Atl\u00e3ntico atr\u00e1s do que foi o seu grande amor. Pison, que havia conversado sobre casamento, perdera o interesse em Adele.<\/p>\n<p>Adele tinha consci\u00eancia que o amor, esse banalzinho que est\u00e1 a\u00ed na boca da maioria, nasce e morre um dia. J\u00e1 o Amor, n\u00e3o. Em prantos, diz ao indiferente Pison que n\u00e3o se importaria em n\u00e3o ser amada; bastaria que ele a permitisse am\u00e1-lo.<\/p>\n<p>A paix\u00e3o, nessa intensidade, exige muita resist\u00eancia ps\u00edquica. Adele sucumbiu. Acabou louca. Embora, no final do filme, Pison e Adele se cruzam sem nenhum reconhecimento por parte dela, isso seria facilmente explicado mesmo se ela estivesse em lucidez. Afinal, depois de anos, Adele n\u00e3o era mais Adele, assim como Pison n\u00e3o era mais Pison.<\/p>\n<p>Ali houve uma total dessincroniza\u00e7\u00e3o tempo\/espa\u00e7o. Mesmo assim, Adele se manteve fiel a seu grande amor. N\u00e3o era sua op\u00e7\u00e3o, entretanto. O Amor n\u00e3o permite escolhas.<\/p>\n<p><strong>Sincronia tempo\/espa\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p>Para muitos, o Amor morre quando, na verdade, ele permanece vivo. Se torna mais abstrato, fato. N\u00e3o h\u00e1 materialidade mais. Aquela superposi\u00e7\u00e3o tempo\/espa\u00e7o que possibilitou, por alguns instantes, a reciprocidade, pode apenas ser entendida como a fase &#8216;confort\u00e1vel&#8217; do Amor. Ele haver\u00e1 de existir apesar disso. Sobreviver\u00e1 a morte f\u00edsica do outro. Sobreviver\u00e1 a morte n\u00e3o-fisica do outro, manifestada no desvio irreconcili\u00e1vel desse para outros bra\u00e7os, outras bocas, outros cora\u00e7\u00f5es. S\u00e3o duas mortes perp\u00e9tuas, mas n\u00e3o do Amor. O Amor viver\u00e1.\u00a0Quem o sente testemunhar\u00e1 sua exist\u00eancia para sempre.<\/p>\n<p><strong>A intensidade do amor<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 li em algum lugar que o Amor, assim, com mai\u00fascula mesmo, \u00e9 t\u00e3o imenso que mesmo se as pessoas desaparecerem essa energia ficar\u00e1 guardada em algum lugar no universo. \u00c9 poss\u00edvel. Amor (o Amor)\u00a0suporta d\u00e9cadas. Suporta indiferen\u00e7a do outro. Se fecha em solid\u00e3o, se for o caso. Mas morre naquele em que foi gerado apenas por ocasi\u00e3o de sua morte f\u00edsica.<\/p>\n<p>Amor assim n\u00e3o se v\u00ea em muita parte.<\/p>\n<p>\u00c9 loucura para a maioria.<\/p>\n<p>Nesses termos, apenas os loucos sabem o que \u00e9 o Amor de fato. Doa\u00e7\u00e3o extrema. Entrega extrema.<\/p>\n<p>Para o amante, \u00e9 dif\u00edcil sequer admitir que o outro possa ter gostos diferentes.<\/p>\n<p>Ci\u00fame \u00e9 apenas efeito colateral, uma esp\u00e9cie de prova da intensidade do Amor \u2013 que gera tanta posse.Porque se sente integrado ao outro. Quer se vestir no outro. Se sentir no outro. Se ver no outro.<\/p>\n<p>O desaparecimento do outro \u2013 por morte ou desist\u00eancia \u2013 n\u00e3o \u00e9 capaz de fazer minguar ou extinguir o verdadeiro Amor. A &#8220;aus\u00eancia&#8221; jamais poder\u00e1 ser preenchida.<\/p>\n<p>Ser encontrado pelo Amor \u00e9 uma ben\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m uma maldi\u00e7\u00e3o. H\u00e1 mais aus\u00eancias que presen\u00e7as nessa hist\u00f3ria. Por isso \u00e9 t\u00e3o \u00fanico, t\u00e3o singular, t\u00e3o excepcional. Depois de ter sido a ele revelado, sua vida jamais ser\u00e1 a mesma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A beleza de tudo est\u00e1 em um amor correspondido. \u00c9 loucura pensar que um amor n\u00e3o-correspondido sobreviva ao tempo. Ser\u00e1? Paix\u00e3o e amor Especialistas dizem que a\u00a0paix\u00e3o pode durar pouco mais de um ano. Paix\u00e3o seria aquela coisa fugaz, moment\u00e2nea, mas arrebatadora e fulminante. Com o tempo, se desfaria. 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