Mudanças

Ah, as mudanças. Umas inevitáveis, outras não. Nesses momentos, a indecisão oferecida pelo incerto futuro deixa-nos com um misto de amargura e esperança. Tudo aquilo que por longos meses desejamos e que, repentinamente, se concretiza, nos leva a pensar se realmente tomamos a decisão mais acertada.

Deixamos casa, cidade, estado. Amigos. Prazeres comuns deliciosamente fúteis. E uma baita insegurança pela frente. Afinal, de uma provinciana cidade do interior semi-amazônico à maior cidade da América do Sul há uma distância enorme.

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É, pois, um momento importante que se aproxima. Por isso a mudança no template. E de ‘linha editorial’ também. Não há dúvidas, a considerar pelo nome estampado aí na cabeceira: esse blog é pessoal e assim vai se comportar – discursando sobre os centímetros do umbigo aos cataclimas do universo.

Certamente, as mudanças deixarão esse espaço mais chato. Orgulhosamente mais chato. Sem traumas por contadores, comentários e etcétera. A chatice, evidentemente, não impedirá o deus Google de enviar incautos pra cá. Isso, claro, não “contribói“, nem “destribói” na orientação e elaboração dos textos.

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O novo template expressa muito o que sou. Mais profissionalmente, menos ideologicamente, digamos assim. Um geógrafo (ou licenciado em geografia, como querem alguns) de centro-esquerda (há controvérsias, porém…), apesar de minha profissão e minhas cores políticas raramente serem objetos de discussão por aqui.

Avante.

Coisa feia, não crime

O caso é conhecido desde ontem: a empregada doméstica Sirlei Pinto foi atacada por quatro garotos-do-bem enquanto esperava o ônibus, de madrugada, para ir a um posto de saúde no Rio de Janeiro. Os rapazes – vejam só – a confundiram com uma prostituta e, como todos sabem, prostituta ao ser encontrada sempre deve levar um esporro (sic!), os marginais aplicaram-lhe uma surra homérica. O progenitor de um dos espancadores, um homem-de-bem, acha que todos os criminosos merecem estar na cadeia, menos aqueles que estudam, trabalham e que tenham pai e mãe. Uma canalhice, enfim. Ter socado e tratado com pontapés a trabalhadora (que não estuda, aparentemente, mas trabalha e tem pai e mãe), além de roubar todos seus pertences, aos olhos paternos, se transformam em apenas uma “coisa feia”.

Coisa medonha, mesmo, é um pai dizer (e pensar) isso.

Viajando

Cidadezinha Qualquer
Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
Um homem vai devagar.

Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar… as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.
Carlos Drummond de Andrade

São duzentos e oitenta quilômetros de distância e mais de quatro horas de solavancos e ruídos estranhos em ônibus certamente confortáveis na década de 60. Não, não é só isso. Coloca na fita aê meninos chorando, homens etílicos resmungando e mulheres cochichando em cem decibéis. Tem a poeira também. Dois quilos por cabeça, pós-viagem.

Enfim.

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A cidadezinha, como aquela do poema de Drummond, tem algo em torno de dois mil habitantes. Tem não; tinha. Há três anos que mais de dois mil homens chegaram a cidade. A população, em questão de dias, dobrou. Isso por conta de uma maldita barragem em construção nas proximidades. Dessas inúmeras que estão aparecendo ao longo do curso do rio Tocantins. Resultado da ‘modernidade’: uma curiosa inflação nos preços na hospedagem em função do aumento da demanda. Apareceram também generosos arredondamentos nos abdomens das adolescentes, mas aí já é outra história.

O estado se vangloria de exportar energia. Um trunfo, para medinhos aqui e acolá de crise energética. O que o povo daqui não se orgulha é da salgada conta da companhia elétrica. Isso é: abundância há para exportação, mas nós, os manés aqui, pagamos mais caros que os vizinhos que a compram. Vai entender.

Voltando a cidadezinha. Existem dois hotéis. Indicaram-me o melhor e, afugentado que fui da diária de R$ 85,00 (sério.), procurei a segunda opção. Um pouco mais leve o castigo-sem-crime: abateram vinte pilas do concorrente. Por certo, o péssimo atendimento fazia parte do pacote; demoraram vinte minutos para me atender no balcão. Sem ao menos me registrar, o hoteleiro indicou uma sonolenta e mal-vestida camareira para me acompanhar ao quarto 23.

Passos lentos. Lentíssimos. Corredor longo, escuro. Não fedia, pelo menos. Quarto com ar-condicionado, TV colocado em um dos beliches. A moçoila me pergunta se quero travesseiro e toalha (SSSIIIICCCC!!!). Aceno, perplexo, a cabeça pra cima e pra baixo. Ela sai. Fecho a porta. Jogo a mala em uma das camas, e na outra – não antes de soltar um suspiro genioso de felicidade pelo descanso que, enfim, apareceria – deito suavemente.

Nada suave foi o estrondo da cama se partindo. Poupo palavras. Taí a foto pra dispensá-las.

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O banheiro, um caso a parte. Limpíssimo, é bom dizer. Mas sem sabonete. E com o piso inclinado. Tomo banho e a água escorre para debaixo da cama, lá no quarto.

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Depois de três dias de trabalho – e os poupo de detalhes sobre o café da manhã e demais minúcias culinárias – durmo parcas seis horas, acordando às cinco da manhã. Em trinta minutos, o ônibus sairia. Estava meio atrasado, pra variar. Chego na portaria faltando dez minutos para a batedeira motorizada partir. Não havia ninguém. Ninguém queria receber pela minha estadia. Olho para um lado, para outro, e deixo, feliz e finalmente, o famigerado “Hotel Central“.

Tropinha, retroceder!

O professor Simon Schwartzman referendou uma tese problemática. Entrevistado pela Revista Veja em um artigo que, futuramente, quero comentá-lo, Simon emprestou seu prestígio a uma frase infeliz. Diz o sociólogo:

As crianças não aprendem mais o nome dos rios ou as datas relevantes da história da humanidade. Elas estão tendo contato com uma ciência social superficial, marcada pela crítica marxista vulgar.

Cabe, aqui, uma reminiscência: quando professor, frequentemente escutava isso de pais de alunos. Aquela história do pai querer para o filho a escola que um dia teve. Ressuscita, nesse caso, a esquelética e ultrapassada geografia nomenclatural, decorativa e insossa. Ignoro, nesse caso, que não havia nenhum pai do gabarito do Dr. Simon.

Uma professora, indignada pelo endosso de Schwartzman a essa contraditória idéia, enviou-lhe um e-mail. A mensagem foi reproduzida no blog do sociólogo.

Estranhamente, Simon reconhece a evolução da historiografia mundial, trazendo à baila a matriz francesa (Fernand Braudel, Marc Bloch e Lucien Febvre), indicando as fontes renovadoras do ensino de história tradicional; no entanto, talvez para salvar a esperta seleção da frase feita pela reporter da Revista, concluiu que:

1. A adaptação das diversas tendências da História no currículo escolar é problemática;

2. Um bom curso de história deveria oferecer, além “do contexto e interpretação dos grandes processos sociais”, um referencial claro de eventos e fatos históricos delimitados numa espécie de “linha do tempo”.

Sobre a primeira conclusão, embora a entenda, acho a idéia um tanto quanto pelega; nesses termos, a disciplina escolar é um mero desdobramento de uma disciplina científica. Essa proposta foi muito difundida pelo matemático francês Chevallard. Em outro polo, acho mais coerente – até mesmo considerando as diversas culturas escolares que moldam o saber escolar – a proposta do também francês Andre Chervel, ao considerar que inúmeros fatores contribuem para a identidade de uma disciplina escolar – que não somente a disciplina científica de referência.

A respeito da segunda conclusão, Simon contradiz o que a Revista Veja afirma. A crítica estampada no texto da matéria foi clara: substituiu-se no ensino de história, e imprudentemente, o estudo das datas pela análise dos processos históricos. Como consequência, abriu-se espaço para um marxismo crítico vulgar, esse mal-que-assola-o -mundo-pós-moderno. Tudo assim, fácil e rapidinho.

Ora, parece-me mais que foram duas pessoas depoentes. Uma, na Revista Veja, acha que devemos voltar a ensinar fatos, nomes, etc. (só faltou lembrar dos ‘heróis pátrios’). Outro, no blog, acha que é seminal um ensino de história que considere o processo, mas sem ignorar um ‘mapa’ (para usar a expressão de Simon) dos eventos mundiais mais importantes.

Se na História a crítica ficou, assim, meia-boca, a fragilidade é inconteste quando a Geografia entra na roda. Sustenta o professor:

Na geografia, o problema é parecido. Mais talvez do que a história, o que era antigamente geografia está hoje dividido entre muitas disciplinas diferentes – cartografia, geociências, botânica, economia regional, demografia, sociologia urbana e sociologia rural, entre outras. Os franceses, sobretudo, com sua excelente tradição de ensino, desenvolveram uma geografia para as escolas que procura ser uma síntese didática de tudo isto, com um forte elemento descritivo – é aí aonde os alunos aprendem como são os continentes, os países, as principais formações naturais, os sistemas políticos e econômicos, como o território é ocupado pelo homem – e, claro, quais são os principais rios, e a importância que têm.

A Geografia Francesa que o Simon se refere teve seus fundamentos abalados há mais de trinta anos. Geografia, enquanto síntese, já nem se discute mais nos círculos acadêmicos. Excelente tradição de ensino da Geografia francesa é outra coisa questionável, também. Tivesse o professor lido esse livro, publicado há décadas, não diria tal disparate.

Enfim: caso queira entender, realmente, como anda a situação da Geografia Escolar francesa, é interessante ler esse livro, especialmente o capítulo cinco (O ensino de Geografia na França). Há, também, uma excelente dissertação de mestrado sobre a situação atual do ensino Geografia nas escolas francesas, disponível para download em três partes. Mas, em todo caso, se for um entusiasta incondicional de uma geografia nomenclatural, melhor deliciar-se com o vídeo abaixo:

</p>

Marketing…

…mais contudente não há (só o link, pois isso aqui é um blog de respeito).

(Oooopss: Link contains nudity. OK, children?)

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Resta saber se, depois disso tudo, a marca será lembrada pelo produto veiculado ou pelo febril comercial…

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Explicações, via “A Notícia“:

Sorridentes e peladas
Como novidade na semana, surge o novo sucesso do YouTube. Trata-se de um comercial da Ovelle Pharmaceutical, empresa inglesa de cosméticos, em que a presidente Joanna Gardiner aparece totalmente nua, ao lado de funcionários, fazendo propaganda da linha Elave de cremes e loções para o corpo. Mais de 400 mil pessoas já acessaram o comercial que pode ser visto também no site da própria empresa (www.nothing-to-hide.co.uk). Só que a loira que anda totalmente nua é uma modelo. Não é a presidente Joanna Gardiner, que também tirou a roupa, escondendo-se numa mesa atrás de um computador. A jogada promocional virou um sucesso e um exemplo típico do que pode ser chamado de marketing viral (espalha-se com a rapidez de um vírus).

Espetáculo, espetáculo… tudo é espetáculo

O conjunto dos conhecimentos, que continua a desenvolver-se atualmente como pensamento do espetáculo, deve justificar uma sociedade injustificável, e constituir-se em ciência geral da falsa-consciência, inteiramente condicionada pelo fato de não poder nem mesmo querer pensar na sua própria base material no sistema espetacular.

Guy Debord, “A sociedade do espetáculo”.

Aconteceu em São Paulo, no final de maio, mais uma edição de ‘Gestão do Futuro: o espetáculo internacional do conhecimento’. Das sete horas, aproximadas, de duração do evento, apenas duas são de palestra (divididas entre dois conferencistas). O restante do tempo é rateado entre o ‘welcome coffee’, MPB ao vivo (Gal Costa, Milton Santos e assemelhados) e, pra fechar com chave de ouro, um singelo coquetel.

No ‘staff’, pessoas de alto calibre intelectual, reconhecimento acadêmico e símbolos da eficiência em gestão, como Luciano Huck, Joãosinho Trinta e Bernardinho. Tudo isso por módicos R$ 1600,00. Melhor terapia empresarial, só o Congresso Empresarial dessa outra firma de sucesso. Espetáculo, espetáculo… tudo é espetáculo.

Nostalgia

Por Florbela Espanca, in “A mensageira das violetas”

Nesse País de lenda, que me encanta,
Ficaram meus brocados, que despi,
E as jóias que p’las aias reparti
Como outras rosas de Rainha Santa!

Tanta opala que eu tinha! Tanta, tanta!
Foi por lá que as semeei e que as perdi…
Mostrem-me esse País onde eu nasci!
Mostrem-me o Reino de que eu sou Infanta!

Ó meu País de sonho e de ansiedade,
Não sei se esta quimera que me assombra,
É feita de mentira ou de verdade!

Quero voltar! Não sei por onde vim…
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

Para mais Florbela, dirigir-se aqui e aqui.