Ainda o relatório IPCC/ONU: discussões na blogosfera

Ricardo Safra agrupou os principais argumentos debatidos na blogosfera a respeito do Relatório IPCC/ONU em dois grandes grupos (consoante x contrário às conclusões do relatório), subdivididos cada qual em mais dois (radicais e moderados).

Evidentemente, é uma classificação genérica, uma vez que não congrega todos os matizes, mas bastante didática, principalmente para aqueles que não acompanharam toda a discussão.

Como já escrevi aqui, a leitura que faço dos dados climáticos me levam a concluir que há, sim, uma progressiva elevação na média da temperatura terrestre. Isso me coloca, portanto, no primeiro grupo.

Mas fechar fábricas e considerar o capitalismo perverso? Tô fora. Não faço parte, portanto, dos defensores radicais da ‘teoria do aquecimento global’. Como acho que é possível usar racionalmente os recursos naturais e, também, pensar em um novo modelo de desenvolvimento, estou – dentro desse esquema hipotético – nas fileiras dos moderados.

O bom dessa história é que, caso nossa aposta esteja equivocada, não comprometemos o destino do planeta.

Relatório IPCC/ONU: e agora?

Como esperado, o Relatório IPCC/ONU foi um prato cheio para a pauta da mídia nossa de cada dia. Há, por um lado, o risco de imobilidade e fatalismo na abordagem. Vi em um telejornal, por exemplo, menção ao fato de que, mesmo se toda a atividade poluidora cessasse, o processo de aquecimento global só amenizaria por volta de 2100. Ao senso comum, isso indica um sonoro ‘já tá tudo perdido, então’.

Outro ponto interessante que o Relatório poderia suscitar é a responsabilidade local dos problemas globais. Apesar dos efeitos serem mundiais, é na instância local que problemas ambientais ocorrem amiúde. Corresponde a pensar globalmente e agir localmente, só pra usar um jargão ambiental. Daí a importância da descentralização da gestão ambiental.

Tradicionalmente, as decisões de gestão ambiental são tomadas em um nível macro, em instância federal, de onde parte as diretrizes e normas de fiscalização ambiental. Ou pelo menos eram assim até o segundo mandato de FHC, que compartilhou a responsabilidade da gestão ambiental com os municípios. Um passo importante, desde que os recursos financeiros sejam, da mesma forma, descentralizados.

Embora seja evidente que uma legislação ambiental moderna e aplicável é salutar na repressão a agressão ao meio ambiente, é preciso avançar na criação de uma nova cultura, de novos padrões de convivência sócio-ambiental. É o modelo de desenvolvimento e de consumo que está em jogo. Torna-se importante que cada um entenda o seu espaço local como espaço de vida, não de consumo.

Uma das formas de se exercitar essa nova cultura passa pela dinamização do espaço local. Identificam-se os focos de desequilíbrio ambiental e, através da organização comunitária, propõem-se ações. Os melhores resultados dos movimentos ambientais têm sido extraídos desse modus operandi. É a partir daí, rua por rua, bairro por bairro, cidade por cidade, que teremos condições de agigantar ações aparentemente ineficientes, mas com excelentes resultados em longo prazo.

O fim do mundo? O Relatório IPCC/ONU

Quando criança morria de medo do fim do mundo. Entre a molecada, havia aquela história misteriosa do cataclismo apocalíptico no ano 2000. Por aqueles tempos, havia o perigo nuclear iminente (‘sabe quantas vezes o mundo pode ser detonado só com as ogivas nucleares?’) e um aceno para a globalização das preocupações ambientais. Daí veio informações em massa da camada de ozônio. Efeito estufa. Ilhas de calor. Noticiários de poluição, queimadas, desmatamento. Diariamente.

Com a divulgação do relatório do IPCC/ONU (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas/Organização das Nações Unidas) contendo previsões catastróficas para o nosso planeta, os anúncios apocalípticos são claros. São perceptíveis, concretos. Um sinal de que a sociedade industrial, como a conhecemos hoje, é um projeto insustentável para o futuro. Entre o que o relatório aponta como fato e o que provavelmente acontecerá, não há nenhuma constatação ou previsão que nos deixe otimista.

Abaixo, resumo via UOL:

O QUE JÁ ESTÁ ACONTECENDO:
– 11 dos 12 últimos anos foram os mais quentes da história
– Oceanos absorvem 80% do calor excedente gerado nos últimos anos, ajudando a aumentar o nível do mar
– Montanhas glaciais e geleiras vêm derretendo em ritmo recorde
– O nível do mar subiu 1,8 mm entre 1961 e 2003; entretanto, entre 1993 e 2003, a média de alta no nível do mar foi de 3,1 mm por ano
– Temperatura na região ártica dobrou nos últimos 100 anos
– Desde 1978, a cada década quase 3% da camada de gelo do Pólo Norte derreteu, contribuindo para aumentar o nível do mar
– Nível das chuvas cresceu de forma alarmante nas América do Norte e do Sul, no norte da Europa e no norte e no centro da Ásia
– Secas aumentaram no Sahel, Mediterrâneo, sul da África e partes do sul da Ásia
– Água do mar no hemisfério norte tem ficado mais fria; no hemisfério sul, o grau de salinidade aumentou
– Aumentou o número de dias quentes e diminuiu a quantidade de nevascas e dias de baixa temperatura
– Desde 1970, aumentou a incidência de tufões e furacões no Atlântico Norte

O QUE DEVERÁ ACONTECER:
– Temperatura deve aumentar entre 1,8 º C e 4 º C ao longo dos anos
– Até 2010, nível do mar deve aumentar e, cerca de 59 cm
– Chuvas devem aumentar em cerca de 20% nas maiores latitudes
– Corrente do Golfo, do oceano Atlântico, diminuirá em cerca de 25% durante o século, mas não impedirá aumento de temperatura

De tudo isso, fico ressabiado de que toda a avalanche midiática que virá naturalize o problema, assumindo uma condição fatalista, e, como expectadores, assistamos – além da bala perdida [ou não tão perdida assim…] em nossa direção, já uma coisa factível – o fim do mundo de camarote.

Mobilizemos, portanto: nas escolas, nas ruas, nos campos, nas construções (parafraseando aquela música famosa do Vandré); nos partidos, nos sindicatos, nas igrejas, nas ong’s. Problemas sociais exigem pressão social. Daí, problemas ambientais podem passar de ‘discursos de intenções’ para uma ‘agenda de ação’ na pauta do dia dos líderes de Garanhuns à Nova Iorque, de Tuvalu aos Estados Unidos, do Bar do Zé à Nestlé.

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Há um astrônomo russo afirmando que não é nada disso que todo mundo tá pensando. O calor tá assim por conta ‘da prolongada atividade solar‘. Lunático ou gênio? Considerando toda a pesquisa acadêmica já realizada, é bem provável que uma aposentadoria lhe fará bem. Assim como licenciar seu sobrenome pra qualquer vodka que deixe o indivíduo doidão, contradizendo evidências e fatos quase consensuais.

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Excelentes discussões sobre o tema em Faça a sua parte. O banner vai pra lateral já, já. Assim que eu descobrir como…

S. Sheldon (1917-2007)

Sidney Sheldon foi um dos primeiros autores que tive o interesse pelo conjunto da obra. Devia ter uns treze, catorze anos. Fiquei impressionado com ‘O outro lado da meia noite’ e ‘A outra face’, minhas duas primeiras leituras do autor estadunidense. Em seguida li ‘Escrito nas Estrelas’, ‘Um estranho no espelho’, ‘A ira dos anjos’, ‘Nada dura para sempre’, ‘O reverso da medalha’. Interrompi a seqüência quando li ‘O ditador’, um livreco muito ruim.

Dia desses apareceu aqui em casa, patrocinado pela primeira-dama, ‘Quem tem medo de escuro’. Não me fez mudar o conceito de Sheldon desde minha última leitura. Há um abuso do diálogo composto por frases curtas – um horror – além da previsibilidade das ‘surpresas’.

Pra muita gente, nada disso importa. Taí os mais de trezentos milhões de livros vendidos me dizendo isso.

Anamorfose cartográfica

A anamorfose é uma técnica utilizada na cartografia e responsável pela maioria dos “mapas estilizados” que vemos com freqüência atualmente. Essa técnica não se preocupa, exatamente, com a forma e o tamanho do espaço a ser representado: os fenômenos em si que recebem maior atenção. Assim, procura-se demonstrar proporcionalmente o dado relevante a que se propõe o mapa. Abole-se, portanto, a ortodoxia da representação consagrada pela geometria espacial euclidiana. Abaixo, um mapa demográfico construído observando essa técnica:

Aqui, mais mapas elaborados através dessa técnica.

O indivíduo, a sociedade e o meio ambiente

Algum tempo atrás, estava participando de um evento sobre educação ambiental, apresentada em seu já clássico viés, em que se privilegia a responsabilização do indivíduo pelos grandes problemas que afligem a sociedade humana do século XXI.

Em dado momento, a palestrante colocou-nos um exemplo simples, próximo de nosso cotidiano, do que podemos fazer para contribuir para um mundo melhor. Dizia ela que, em sua empresa, foi decidido que não mais usaria copos descartáveis no bebedouro, uma vez que o petróleo é um recurso finito e, dessa forma, poderíamos contribuir com um futuro mais justo para todos.

Enquanto isso, a maior parte dos funcionários fazia (ela inclusive), por quatro vezes, o trajeto de ida e volta ao trabalho em possantes automóveis.

Daí fica a questão: a apropriação do ‘politicamente correto’, do ‘bom mocismo’, sem nenhum tipo de reflexão séria sobre o problema ambiental, sempre irá produzir aberrações desse tipo.

Já escrevi aqui mesmo, lá no início do blog, e provocativamente, que o homem não polui o meio ambiente. E não é porque a mulher também polui, como algum engraçadinho poderia concluir; mais do que isso, é através da relação do ser humano com a natureza, mediatizado por uma determinada forma de organização social, que teremos o grau de interferência da sociedade na natureza.

Prova disso é que o mesmo homem consegue, em tempos e espaços diferentes, ter relações com a natureza em diversos graus de apropriação e intervenção. Englobar na entidade ‘homem’ um indígena no Alto Solimões e um madeireiro em Altamira é suficientemente contraditório para não nos exigir mais linhas de argumentação.

Se entendemos, por conseguinte, que a ação do ser humano é orientada por determinadas formas de organização social, colocam-se algumas dificuldades para a biologia na análise dos problemas ambientais. O homem deixa de ser uma espécie animal para assumir toda a complexidade do ‘ser social’.

E que de sociedade falamos hoje? Evidentemente, daquela que valoriza o lucro e incentiva o consumo desenfreado. Daí, é ‘natural’ que haja uma exploração da natureza como jamais vista e que se tenha uma gigantesca produção de lixo.

E como o indivíduo se encaixa nessa história toda? Diz Antonio Gramsci, importante intelectual italiano morto nos porões fascistas de Mussolini, que o indivíduo comum tem poder limitado de transformação social, o que concordamos integralmente. O mesmo não se pode dizer da associação dos indivíduos em determinada causa. Para Gramsci,

o indivíduo pode multiplicar-se por um número imponente de vezes e obter uma mudança bem mais radical do que à primeira vista pode parecer possível.’*

Aqui, e é por demais óbvio, a instância de decisão saltou do indivíduo para o coletivo. A decisão inicial é individual, mas a eficácia dos resultados passa por uma ação coletiva. Não basta uma decisão do indivíduo. O peso está no agir coletivo.

Não se tem dúvida, por outro lado, que os grandes problemas ambientais do século XXI partem de decisões corporativas. George Bush, ao não ratificar o Tratado de Kioto, abalizou sua decisão mais pelos interesses das grandes empresas estadunidenses do que por alguma especulação moral ou ética ambientalista.

Se são as empresas as maiores contribuintes para a poluição ambiental, há de se pensar como responsabilizar uma pessoa jurídica por uma desrespeito às normas morais instituídas na forma da lei. Apesar da impossibilidade de castigo físico, Rodriguo Alves da Silva demonstra que é juridicamente passível de ser responsabilizada uma empresa que causa distúrbio ambiental.

Ora, e a tão propagada Certificação ISO, os selos verdes, a responsabilidade ambiental de que tanto falam as empresas?

Certamente não é por bondade dos empresários, nem por que estão, primeiramente, interessados em um ambiente mais saudável. É lucro mesmo. É aceitação de seus produtos em mercados internacionais, sim.

E toda essa pressão social em torno daquilo que é ecologicamente saudável não seria possível sem a importante atuação de inúmeros movimentos ecológicos sérios que por aí existem.

Já nos ‘finalmentes’, abro parêntesis para generalizar e provocar:

Considerando ainda que os recursos naturais são apropriados de forma desigual, resta ainda saber se a instruída classe média está antenada ecologicamente porque se preocupa com o fim de seus privilégios – uma vez que seu desfrute consumista está em jogo – ou para atenuar o peso na consciência por terem clareza de que boa parte dos recursos naturais é gasto em seu deleite. Pode, eventualmente, ser consciência planetária, também.

Para concluir, um outro exemplo desses discursos histéricos se dá quando discutimos o uso da água. Forçam tanto a barra no alarmismo que, sinceramente, me sinto culpado por beber água. Só não paro de tomar banho…

* A citação foi retirada de ‘Obras Escolhidas’, edição da Martins Fontes, publicada em 1978.

As cores da F-1

Eu devia ter uns três anos quando ganhei um macacãozinho da Ferrari. Todavia, o corpo em crescimento não foi muito piedoso; logo, logo, tive que deixá-lo. Mesmo assim, impedia minha mãe de fazer com o macacão o que ela costumava fazer com as outras roupas: doá-las. Até que um dia cheguei em casa e não mais o vi.Não que eu gostasse da Ferrari – nem ao menos entendia aquela fileira de carros. O que me atraía era aquele conjunto de cores, aquela confusão de tons. Somente aos seis, sete anos, que os carros, os motores, os sons, os pilotos de dezenas de países formaram o conjunto irresistível daquilo que até hoje – mesmo sabendo da preponderância do carro frente ao piloto – ainda sou apaixonado.

Evidentemente, considero ainda as cores do bólido de um F-1 uma atração a parte. E se a McLaren me deixou frustrado ano passado, depois desse Renault aí embaixo, qualquer presepada que porventura apareça não me incomodará.

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No site da Renault, há uma referência ao ano de 2007 como Ano 1 D. S. (Depois de Schumacher). Bons tempos virão, então.

Desnutrição, pobreza e morte. Os índios, hoje

Quem visita as aldeias indígenas do Tocantins sai estarrecido com a miséria presente (a maioria, é bom dizer. Da outra minoria conversamos depois…). Um problema social com graves consequências de saúde pública. Ano passado, dezenove índios morreram de causa desconhecida. Desnutrição, vômitos e diarréia eram alguns dos sintomas apresentados. A divulgação das mortes causou celeuma na FUNAI e na FUNASA, mas pouco foi feito até então. Talvez em função disso, os problemas retornaram. Três crianças apinajés faleceram com os mesmos sintomas nos últimos trinta dias. Como da outra vez, não se sabe qual é a misteriosa doença, mas é evidente o que a causa. A julgar pelo retrospecto, as mortes ocorridas e a ocorrer não irão, novamente, sensibilizar qualquer instituição humanitária. São apenas alguns índios, né?

2007

Resoluções para o ano novo? Não, não. Apenas um sincero desejo de que esse 2007 seja melhor que os dois anos anteriores.

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Não consegui acessar o Youtube. Pensei que fosse problema na conexão, ou vírus no computador. Por fim, deixei de lado, resignado: era só uns videozinhos bestas mesmo.

Desgraçadamente, o problema foi mais sério. A despudorada Cicarelli, agora mocinha corada, conseguiu a proibição do acesso ao site por internautas brasileiros. E daí um problema que era só dela passa a ser um incômodo nacional.

Nunca uma, er, brincadeirinha atrapalhou tanto a diversão dos brasileiros.

Logotipo bastante apropriado, via Um bicho de Rondônia. Teo Victor, o dono do blog, também apresenta formas de burlar a proibição aqui e aqui. Interessante.

Historinha verde-amarela de natal

Papai-noel substituiu o vermelho por outra cor, indefinida, para proteger sua identidade. O calor excessivo lhe impediu de usar as renas. O andar constante desse fim de ano fez desaparecer sua enorme barriga. Isso foi bom, uma vez que, no Brasil, não há tantas chaminés confortáveis. O acesso a casa foi mais difícil. Depois de muita vigilância, descobrir os momentos de ausência do vigia (com seus expedientes ocasionais…), driblar cercas elétricas, isolar o cão da família. Vencido os obstáculos iniciais, papai-noel abandonou a doçura. [‘Brasileiro não facilita pra gente’ é uma de suas queixas mais comuns ouvidas do seu enorme depósito de presentes.] Do seu saco quase vazio, retirou uma serra, quebrou todos os vidros da janela da cozinha e pôs-se a cortar as barras de metal. Ágil, conseguiu abrir passagem em pouco menos de quinze minutos. Dentro da casa, não encontrou nenhum presente no saco, amaldiçoando a incompetência de seus auxiliares. Apurou o olhar e não viu, no entanto, sequer árvore de natal para depositar os presentes. ‘Que falta de espírito natalino’, pensou, mais consolado. Preocupou-se, por um momento, com o saco vazio. De repente, em um estalo, uma idéia lhe apareceu. Inconformado por não ter pensado nisso antes, começou a recolher objetos de valor (e carregáveis). E assim termina a história, com a inusitada transformação de papai-noel em um estranho Robin Hood – que surrupia dos pobres para vender para pobres. A preços módicos, evidentemente.

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Bem que poderia ter deixado meu saxofone e minha coleção de DVD’s.