Quotes

Meu distinto leitor, minha encantadora leitora, queiram ter a fineza de retirar os olhos desse blog. Não leiam mais. Saibam que o desejo mais sagrado que tenho no peito é mandar vocês todos, simplemente, às favas.

Rubem Braga, se blogueiro fosse.

Adeus a Gorz

Três dias depois, soube que André Gorz, que também assinava trabalhos sob o pseudônimo de Michel Bosquet, morreu. Um suicídio curioso, é verdade: Dorine estava com uma incurável doença e ambos decidiram encurtar a vida.


Gorz e Dorine, em 1947. Foto by Susi Pillet, via Libération.
Um dos expoentes da Nova Esquerda, Andre Gorz manifestou um marxismo muito próximo do existencialismo. Era amigo próximo de Sartre. Escreveu, entre outros tantos trabalhos publicados no Brasil, “Adeus ao proletariado: para além do socialismo” (1980) e “O imaterial: conhecimento, valor e capital” (2003). O amor profundo dedicado a Doriane, sua companheira, é expresso, inclusive, na dedicatória dos dois livros citados. No primeiro, “A Dorine, more than ever“; no último, “Graças a Dorine, sem a qual nada haveria“. Descansaram em paz, certamente.

Quotes:

Sou a favor do canibalismo compulsório. Se as pessoas fossem obrigadas a comer o que matam, não haveria mais guerra.

Abbie Hoffman

Genocidas que se cuidem…

Ocas e responsabilidade social

Não foi a primeira vez que o vi. Com um colete cinza, grafado OCAS, vendia revista. Não dei muita bola. A bem da justiça: me comporto assim com qualquer tipo de vendedor de letrinhas sobre papel. Livros, enciclopédias, bíblias, coleções da National Geographic Magazine? Não senhor, obrigado.

Pois é. Hoje foi um dia diferente. Eu diria ao rapaz – pensei – que pagaria a revista, desde que não saísse mais que três reais. Bobagem minha; recebi a revista por três verdinhas.

Acontece que a revista, depois soube, não é uma revista a mais: publicada pela Organização Civil de Ação Social (OCAS), tem todo um projeto social por trás. Funciona mais ou menos assim: o morador de rua compra por um real cada exemplar. Fica, portanto, com os outros dois reais. O objetivo da revista, conforme expresso na página de entrada,

é fornecer instrumentos de resgate da auto-estima dos vendedores, criando mecanismos para que o indivíduo se torne seu próprio agente de transformação, de forma que Ocas” seja um ponto de passagem, e não o destino definitivo.

A revista, em si, é melhor do que muitas que aparecem, com dobrado valor, em bancas tradicionais. A edição atual (setembro/outubro) tem, como reportagem de capa, uma entrevista com o cartunista Ziraldo. Também é entrevistado, lá no finalzinho da revista, o escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez. Com vinte e um livros publicados, apenas dois circulam oficialmente em Cuba. Perdões ao cartunista brasileiro, mas acho que a capa deveria ser com o camarada Gutiérrez. Provocador, o cubano responde às questões com fina ironia. Vejam:

Ocas”: Por meio de seus livros, muita gente teve a possibilidade de ver uma Cuba pouco ou quase nada mostrada. O que acha disso?
Pedro Juan Gutiérrez – Sim, para muitos é uma Cuba desconhecida, e uma Havana desconhecida também. Toda cidade contém muitas cidades. São Paulo, por exemplo, é um monstro muito mais terrível e devorador do que Havana.

Ocas”: Porque acha que tantas pessoas querem sair de Cuba?
PJG – Eu nunca pensei em sair de Cuba. Gosto de viver ali, em Havana, em meu bairro. A situação econômica é difícil e as pessoas procuram outros lugares, como acontece com muitos brasileiros, colombianos, equatorianos, bolivianos etc. As pessoas sempre procuram um lugar melhor onde viver. Isso é universal.

Há de se concordar, depois de lida a entrevista, com a frase inicial da reportagem, assinada por Morena Madureira: Para Pedro Juan Gutiérrez, Cuba também é aqui. Ou o Brasil também é lá.

Atualizações blogosféricas

É um tempinho só que a gente fica off e um bocado de coisas acontece.

Falemos de vidas virtuais: Ricardo Safra, ex-Orbis Terrarum, depois de algum tempo também off criou o Cartas. Veio cá, e tal. Só que sequer deu tempo de retribuir o comentário. Já não esta mais entre nós. É uma pena; há poucos textos de geografia na blogosfera com tanta argúcia e estilo como aqueles escritos por Safra. A torcida é para que volte logo.

Falemos de vidas reais: Fernando, do Observador, passou por uma cirurgia. Felizmente, tudo OK. Prova disso é que, já hoje, retoma todo seu rotineiro veneno contra a politicalha nacional. Saúde, grande Fernando, saúde.

~*~

Todo blogueiro que se preze tem que ter, necessariamente, um chato pra encher o saco. E, sinceramente, eu ficava em estado quase depressivo em pensar que, puxa vida, eu não tinha um trolzinho desses. Um amigo até me recomendou recorrer a Santo Isidoro, padroeiro da internet, para que esse pulha aparecesse logo.

Enfim, demorou, mas veio. Com nome de anjo, veja só. O texto em que o boçal lançou âncoras, comentando a quatro patas, é de mais de dois anos (até imaginava que essa tal Calypso tivesse acabado). Alegro-me da mesma forma. O que vale é a ofensa, apesar da ameaça explícita na penúltima frase ter gelado meus ossos… Simbora:

bruno | bruncomb@xxxxxxx.com.br | brunocomb | IP: 143.106.1.39

O negócio é um seguinte…se você acha que
falar mal da Banda Calypso, vai te expor ao
com uma página de site em .org…ah meu
querido se toca…agente não aprende a vencer
na vida falando mal do próximo…eles
conseguiram chegar onde estão pelo esforço,
garra, atitude, vontade, etc. E vc já conseguiu
ir para fora do Brasil, divulgar seu trabalho
por lá???acho que nãO né…
Então toma um se mancol ou eu chamo o fã clube
todo só pra ver essa patifaria…

**Cada um é o que é, sem ser imitação**

Fala, mano Bruno! O negócio é o seguinte: tu não entendeu nada. Primeiro, isso aqui não é um site. E, mermão, há quem goste de música brega, há quem não goste. Há, também, nesse país, o direito de dizer QUE NÃO GOSTA, ué…

Aliás, faz uma coisa: melhorando a ortografia (já que, na gramática, mais dia menos dia, erros crassos sempre aparecem até mesmo nas melhores famílias…) e alçando o posto de semi-analfabeto, você já poderá, com sucesso, criar um blog.

Sem mais, a Diretoria do Boteco agradece a gentileza dispensada.

Así? Soy contra…

Queria apenas um livrinho de entretenimento para passar o final de semana. Lembrei-me d’Os Reis Malditos, de Maurice Druon, escritor francês que usou seis volumes para traçar um excelente painel dos alcoviteiros palacianos parisienses do seculo XIV, e que, lidos na adolescência, pouca recordação me traz hoje – a não ser pelo fato de que anunciava para todos os colegas como a melhor série já escrita por aí. Perto da coleção de Druon, ainda na estante de literatura francesa, encontro o até entao não lido O último dos Medicis, de Domenique Fernandez – e deixo meu querido Maurice para uma próxima vez. Domenique, homossexual assumido, tem certa freqüência em usar protagonistas gays históricos. Assim foi em Tribunal de Honra e A corrida para o abismo, retratando, respectivamente, a vida do compositor russo Tchaikovski e do pintor italiano Caravaggio, respectivamente. Por pré-conceito, poderíamos imaginar que os personagens de Fernandez assumissem uma postura heróica, valente, próxima dos valores comumente identificados pelo conceito de dignidade. Ilusão, porém. Se há alguma benevolência por parte do autor em relação ao personagem gay, fica circunscrito a capacidade longeva de contrariar as mínimas regras sociais em voga. O caso de Gian Gastogne, o último mandatário representante da poderosa família dos Medicis, e grão-duque de Florença na transição dos séculos XVI/XVII, é exemplar. Narrado em primeira pessoa, prática corrente do autor francês (e usando, sempre, um personagem contemporâneo aos fatos), nas páginas centrais do livro nos é apresentado sua homossexualidade aos olhos do narrador e, em seguida, ao pai:

Por que Gian Gastone não tinha escolhido um jovem senhor da corte, onde esses costumes eram, senão honrosos, pelo menos aceitos com uma neutralidade benevolente? (…) Mas esse africano bastardo? Um tipo de última categoria, que condenava Gian Gastone aos encontros furtivos, um mestiço, bom apenas para o prazer clandestino.” (p. 118)

“(…)
– Meu pai, eu não me casarei.
Colérico, o grão-duque ficou vermelho. Não sabia eu como o rapaz poderia justificar-se quando, de improviso, declarou – e, por mais habituado que eu fosse à independência de sua linguagem, a seus arrebatamentos, a seus desaforos, fui tomado de surpresa por um descaramento tão formidável:
– Não me casarei, meu pai, porque… (ele próprio, hesitando antes de soltar a palavra fatal, tinha enrubescido) porque… vós vedes diante de vós… um homossexual!

(…) Eu achava o filho atrevido; a audácia do pai me derrubou. (…) Ele avançou até Gian Gastone e apertou-o em seus braços (…):
– Um homossexual!… Até que enfim!… (…) Eu mesmo, sem me vangloriar, algum favorito de cama, aqui e ali, eu nunca neguei. Nem teu irmão, parece!
– Vós, meu pai, o mais intratável defensor da religião romana! Raciocinar nem mais nem menos que um pagão!
– Filho devoto da Igreja, sou primeiro um Médicis!
– A igreja vos condenaria se…
– O que é proibido aos pobres, aos obscuros, continua permitido aos ricos e poderosos.
” (p. 131-132 ).

Sim, como se vê, o pai carola e austero concorda genuinamente com a posição do filho. Daí ate o final do livro, Gian Gastogne mergulha em um profundo sentimento autodestrutivo, que o leva, claro, ao opróbrio. O raciocinio do personagem é algo mais ou menos aproximado da frase atribuída a Groucho Marx (“ Eu nunca gostaria de pertencer a qualquer clube que aceitasse uma pessoa como eu como membro”). Um libertarianismo às últimas consequências, portanto. As cenas finais são de textura desagradável, nojentas até. Pela excelente construção literária de Fernandez, porém, não dá pra largar o livro. Se é certo que dificilmente torceremos por esse anti-herói, por outro lado dificilmente desgrudaremos da leitura do livro, até a última frase.

Amigos

Quando criança, pensava que teria meus amigos próximos até a velhice. Em poucos anos, ficaram uns gatos pingados aqui e outros acolá. Era amizade para sempre, não era? Não era. Uns, mudaram. De cidade, país ou temperamento. Outros – esses, percebemos depois, os verdadeiros amigos – não se afastaram nem com o tempo, nem com a distância. Nenhum desses dois elementos, hoje vejo, podem afastar uma verdadeira amizade. Também não são obstáculos para nenhum relacionamento amistoso.

Se o espaço e o tempo há muito já não são mais impedimento, o mundo pós-moderno nos trouxe outra possibilidade de relacionamento. Refiro, evidentemente, às amizades virtuais. Nesse caso, o encontro presencial é um mero detalhe. Uma cereja no bolo; se tiver, excelente. Contudo, não é sua ausência um problema catastrófico. O bolo não deixará de ser bolo. Eu não escuto a voz, não sinto a textura da pele, nem a cor da gargalhada do(a) outro(a). Mas conheço bem. E tenho em alta conta, da mesma forma daqueles fiéis que me rodeiam.

Ou qual outra forma que justifica passar a tarde inteira pensando em como dizer algo de legal para uma amiga tão especial como a Sandra? Na mais absoluta falta de boas palavras, vou de tradicional, mesmo: feliz aniversário, Sandrex!

Loucura

Semana passada, fiquei deveras impressionado por duas cenas. Enquanto saía do banho, vi, pela metade, uma reportagem na TV sobre um rapaz que, tranquilamente, se dirigiu aos andares superiores de um shopping e se atirou lá de cima. A segunda cena, tão pior quanto, ocorreu quando, numa manhã fria, um senhor, aparentando uns quarenta, cinquenta anos, agachou-se na calçada próxima a rua e, com as mãos em formato de conchas, lavou o rosto com a água empossada, provavelmente saída de alguma piscina ou carro lavado nas imediações. Quase nu, não parou de entoar um amontoado de palavras que nem de longe parecia uma canção.

~*~

De me transformar em assassino, barata ou político profissional não tenho medo. Da loucura, sim.

Três descobertas e um até breve

Links de blogs escondem raridades, além de ser um poderoso instrumento de arrebanhamento de súditos leais.

<Comentário ultrajante IN>: é só ver alguns blogs famosos pra intuir que a maioria dos links estão ali por mil e uma razões, menos por afinidade de conteúdo. Hã? Cê estava feliz porque teu blog foi listado em um desses medalhões? Lamento pelo trauma, mas é bem provável que seu blog, para o tal famoso, é apenas mais um a fazer número naquela modorrenta lista de milhares de blogs. Tá chorando? Que nada, rapá… pegue o copo e sente aqui, ó.<Comentário ultrajante OFF>

Pois bem. Graças a linkania de Rafael Galvão descobri Pedro Nunes, e através da Sandra Pontes cheguei ao Tuca Hernandes. Já o Chá de Hortelã, de Liliana Ometto, acessei via pesquisa google, numa tentativa de achar blogueiros que usavam podcast.

Os tais aí de cima são muito bons para um post tão reduzido. Em breve saio com um outro, um pouquinho melhor, relatando minhas impressões positivas sobre o achado.

Porque afinal de contas, Edu, “Übberland” me espera. Um até breve – que, nesse caso, corresponde a Agosto. Ciao.

Reeditando Prost e Senna?

Já disse por aqui que há tempos não aparece uma temporada da Formula 1 tão competitiva e emocionante como a que temos em 2007.

Ontem, por exemplo: derrapagem e ultrapassagem constantes marcaram o GP da Europa, realizado em Nürburgring, na Alemanha. As monótonas corridas, sobrando o caracter tecnológico determinista, aparentemente ficaram para trás. Tivemos, vejam só, o novato e desconhecido Markus Winkelhock, piloto alemão da minúscula Spyker, liderando a prova – por breve momento é verdade, mas impensável alguns anos atrás.

A frieza característica da era Schumacher, ao que parece, saiu de cena juntamente com o piloto alemão. Ou como ignorar o arranca-rabo entre o antipático Alonso e o nervosinho Massa, uma versão atual das relações pouco amorosas entre Ayrton Senna e Alain Prost? Aliás, acho que o Felipe foi imprudente; a reclamação do tal ‘Príncipe das Astúrias’, em relação ao toque entre os dois carros, deveria ser respondida com uma barulhenta gargalhada. Ou, então, um ‘Apelou, Mané? Assim cê perde, rapá…”. E assim mesmo, nesse bom português, pra não facilitar.

[parênteses para Ralf Schumacher: a FIA deveria recomendá-lo dar cabeçadas, sem capacete, claro, no muro de proteção da pista, assim que sair nervosinho do cockpit. É menos feio que tentar espancar gentis e bem-intencionados fiscais de prova.]

Cabe, ainda, palavrinhas sobre o atendimento do guindaste ao piloto inglês, Lewis Hamilton. Uma rapidez que só vendo. Até os manobristas do autódromo dão uma forcinha. Pena que, dessa vez, a sorte não o ajudou. Para felicidade, obviamente, de Alonso, Massa e boa parte dos brasileiros.